O relatório do Citi caiu na semana passada como se fosse novidade, e a manchete quase engasga de tão previsível: os laboratórios de IA estão pressionando por regulação antes que uma crise estoure. Pausa dramática, olhar preocupado, mão no coração. Só que quem acompanha esse filme há trinta anos já viu esse roteiro em pelo menos cinco setores diferentes, e o final é sempre o mesmo. Quando o dono do cassino pede para o governo escrever as regras da mesa, não é porque virou moralista da noite para o dia. É porque quer trancar a porta antes que outro entre.
Siga o dinheiro, e a farsa se desmonta em três minutos. Os quatro ou cinco laboratórios que hoje dominam o topo da cadeia gastaram centenas de bilhões em infraestrutura, chips, energia e talento. Construíram fossos tão profundos que qualquer startup precisaria de uma década e um milagre para chegar perto. E agora, coincidentemente, descobriram que a IA é perigosa demais para ficar sem supervisão federal. Que o Congresso precisa criar licenças, auditorias, comitês de segurança, regimes de compliance que só quem tem exército de advogados e lobistas consegue atender. Traduzindo do burocratês para o português: fechem a porta atrás de nós, por favor, e ponham cadeado.
É a velha manobra da escada. O sujeito sobe, chega ao topo, e chuta a escada para que ninguém mais suba. Aconteceu com os bancos depois de 2008, quando a regulação pesada matou os pequenos e consolidou os grandes demais para quebrar. Aconteceu com a indústria farmacêutica, onde o custo de aprovação de um remédio virou barreira intransponível para quem não tem dez bilhões no caixa. Aconteceu com as telecoms, com as elétricas, com o setor financeiro inteiro. Toda vez que o governo entra para proteger o consumidor, quem termina protegido é o oligopólio existente, e quem paga a conta é o consumidor que ficou sem alternativa.
O detalhe delicioso é que ninguém pergunta o óbvio. Se esses laboratórios acreditam mesmo que a tecnologia que eles próprios estão desenvolvendo é uma ameaça civilizacional, por que continuam desenvolvendo? Por que não param, já que são donos do botão? A resposta é constrangedora de tão simples: eles não acreditam nisso. É teatro. O discurso apocalíptico serve para dois propósitos simultâneos, inflar valuation com narrativa de tecnologia divina e justificar a criação do cartel regulatório que vai eliminar concorrentes menores. É lucro dobrado numa cajadada só.
E o Estado, claro, adora o convite. Nada excita mais um burocrata do que a chance de regular uma indústria trilionária que ele não entende, com poder de vida ou morte sobre quem pode inovar e quem não pode. Cada nova agência que nasce é um exército de consultores, ex-diretores de laboratório virando conselheiros, ex-reguladores virando lobistas, portas giratórias suando graxa. O nome disso já foi dado há séculos, é captura regulatória, e produz sempre o mesmo resultado, indústria estagnada, consumidor lesado, cartel enriquecido, cidadão infantilizado achando que alguém está cuidando dele.
O que os apocalípticos de terno esquecem de mencionar é que a única defesa real contra qualquer tecnologia perigosa nunca foi a caneta do burocrata. Foi a competição. Foi o mercado aberto onde mil startups podem tentar mil abordagens, onde erro custa dinheiro em vez de virar processo administrativo eterno, onde o consumidor escolhe e o preço regula. Fechar a IA dentro de uma redoma federal comandada pelos quatro maiores é garantir que qualquer coisa perigosa que exista lá dentro nunca seja descoberta a tempo, porque quem deveria descobrir foi expulso do jogo antes de entrar. A crise que dizem querer evitar vai chegar exatamente por causa da regulação que estão pedindo para preveni-la.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.