O relatório do Citi caiu na semana passada com a discrição de um elefante em loja de cristais, e mesmo assim a mídia financeira brasileira preferiu falar de outra coisa. A tese é simples e devastadora: o Federal Reserve, ao manter postura dura contra novos cortes de juros, vai desacelerar tudo que não seja inteligência artificial. Traduzindo do economês para o português dos mortais: a economia americana, aquela que supostamente cresce, na verdade está sendo carregada nas costas por meia dúzia de empresas de tecnologia enquanto o resto do corpo produtivo agoniza sob o peso de juros altos. Se você tirar Nvidia, Microsoft, Meta e companhia da conta, o PIB dos Estados Unidos revela sua verdadeira cara, e não é bonita.
Quer dizer, estamos diante do fenômeno mais previsível da história econômica moderna, e ainda assim tratado como novidade pelos analistas de terno. Décadas de juros artificialmente baixos criaram uma bolha gigantesca de capital malinvestido, que se refugiou primeiro em imóveis, depois em criptomoedas, depois em ações de crescimento, e agora está toda concentrada num único andar do prédio chamado inteligência artificial. Quando um banco central mantém dinheiro barato por tempo suficiente, o mercado não aloca recursos com racionalidade, ele apenas persegue o próximo brilho. E quando o Fed finalmente tenta corrigir o rumo apertando a torneira, descobre que só um setor consegue suportar o aperto porque só ele tem margem para absorver o custo do capital.
Olha, ninguém precisa ser gênio para entender o arranjo. As big techs que dominam o índice S&P 500 hoje respondem por parcela crescente de todo o crescimento reportado. O restante, indústria de médio porte, varejo real, construção civil, pequenos negócios que empregam a maior parte do povo americano, está sufocando. E o remédio proposto pelos guardiões da política monetária é continuar apertando o torniquete, na esperança de que a inflação, que eles próprios criaram imprimindo trilhões durante a pandemia, ceda antes que o paciente morra. É como bater no cachorro para ele parar de latir depois de você mesmo ter pisado no rabo dele.
Me diz uma coisa, quem paga essa conta no final? Não é o executivo de Silicon Valley que ganha em stock options valorizadas pela euforia da IA. Não é o gestor de fundo que já se posicionou nos ganhadores. É o trabalhador comum que financiou casa a juros de 7% ao ano, é o pequeno empresário que não consegue rolar dívida, é o poupador que viu suas reservas evaporarem em cinco anos de inflação disfarçada. A concentração de crescimento num único setor é o sintoma, não a doença. A doença é um sistema monetário que há décadas privatiza os ganhos da expansão de crédito e socializa as perdas quando a festa acaba.
E aqui vem a parte que ninguém quer discutir. Quando 100% do crescimento econômico depende de um único tema tecnológico, o que temos não é economia, é loteria coletiva. Basta um tropeço numa entrega da OpenAI, uma decepção nos lucros da Nvidia, uma regulação europeia mais dura, e o castelo desaba junto com os índices que sustentavam a ilusão de prosperidade. O Fed sabe disso, o Citi sabe disso, e por isso o relatório usa a palavra desaceleração como quem pisa em ovos. Chamar pelo nome verdadeiro, que seria recessão camuflada, custaria caro em credibilidade institucional.
O que se vê são manchetes eufóricas sobre valuations bilionários e trilionários. O que não se vê são as milhares de pequenas falências, os empregos que não foram criados, os projetos que morreram na prancheta porque o capital preferiu apostar no próximo modelo de linguagem. A economia real, aquela feita de gente produzindo coisas para outra gente consumir, está sendo drenada para alimentar uma corrida especulativa que os banqueiros centrais fabricaram e agora fingem tentar controlar. É o velho truque de sempre, vestido com roupa nova de silício.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.