O Citi reduziu a exposição ao ouro depois que o Federal Reserve adotou postura hawkish, ou seja, sinalizou que a taxa de juros americana ficará elevada por mais tempo do que o mercado gostaria de acreditar. É essa a manchete técnica. Agora vamos ao que ela realmente significa, porque o vocabulário de banco central existe justamente para que o cidadão comum não entenda o que está sendo feito com o poder de compra do salário dele.
Ouro sobe quando o dólar apanha. E o dólar apanha quando o Fed imprime demais, gasta demais, ou promete juros baixos para financiar a farra fiscal do Tesouro americano. Quando o Fed vira a mesa e diz vou manter juros altos, está basicamente admitindo que a inflação que ele mesmo criou não foi embora sozinha, apesar dos discursos triunfantes de dois anos atrás. O metal amarelo, esse velho desafeto dos banqueiros centrais desde que Nixon rompeu o último elo com o padrão-ouro em 1971, recua no radar porque o custo de carregá-lo aumenta. Simples assim. E os analistas do Citi, que vivem de acertar o vento, ajustam a vela.
Repare no truque, porém. O que se vê é uma decisão técnica de banco. O que não se vê é a confissão silenciosa por trás dela. O ouro só serve de refúgio porque a moeda oficial é confiável apenas até o próximo ciclo eleitoral. Nenhum investidor sério compra barra de ouro achando que o metal vai virar produtivo, gerar dividendo ou pagar aluguel. Compra porque desconfia de quem controla a máquina de fazer dinheiro. Quando o Citi reduz posição, não está dizendo que o dólar ficou bom; está dizendo que, por ora, o dono da impressora prometeu segurar o dedo no botão. Prometer, aliás, é o que essa gente sempre soube fazer melhor.
Siga o dinheiro e a história fica ainda mais interessante. Os maiores compradores de ouro nos últimos anos não foram fundos de pensão americanos nem fundos soberanos europeus. Foram bancos centrais de países que assistiram ao Ocidente confiscar reservas russas em 2022 e concluíram, com razão, que reserva denominada em dólar é reserva no bolso do tio Sam. China, Índia, Turquia, Polônia, países do Golfo, todos correram para o cofre físico. O ouro voltou a ser o que sempre foi antes de virarem essa ficção fiduciária global: seguro contra apreensão política. O Citi corta uma parte da exposição de curto prazo, mas o motor de fundo continua rodando, e continua rodando porque a desconfiança na moeda estatal americana só cresce a cada trilhão de dívida nova.
Há uma ironia que vale registrar. O mesmo sistema financeiro que trata o ouro como bárbara relíquia, expressão que os economistas de gabinete adoram usar para parecerem modernos, é o sistema que corre para o metal toda vez que a casa começa a pegar fogo. Ouro não paga juros, é verdade. Também não quebra, não é congelado por sanção, não vira pó porque um comitê de doze burocratas em Washington decidiu experimentar uma nova política monetária inovadora. A pretensão de que meia dúzia de economistas com PhD sabe alocar o crédito de uma economia continental melhor do que milhões de agentes livres é a fantasia que sustenta essa engrenagem toda. Enquanto durar a fantasia, o ouro recua. Quando a fantasia rachar de novo, e sempre racha, o ouro volta a brilhar. Não porque tem alma, mas porque a moeda de papel tem menos ainda.
Então quando você ler que um grande banco reduziu exposição ao ouro por causa do Fed hawkish, não engula a manchete como se fosse noticiário do tempo. É boletim de guerra monetária. O Fed está apenas administrando a percepção pública enquanto o Tesouro americano precisa rolar mais de nove trilhões de dólares em dívida no próximo ano. Segurar o ouro no chão faz parte do teatro. O metal não se importa. Ele espera. Sempre esperou. E sempre venceu no longo prazo, porque nenhum comitê votou ainda uma lei capaz de revogar a aritmética.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.