A notícia é apresentada como novidade, mas é apenas mais uma missa cantada no altar da inteligência artificial. A Citizens reitera avaliação da Adobe porque enxerga crescimento em IA, e o mercado finge aplaudir uma descoberta que qualquer gerente de agência de publicidade já sabia há dois anos. A Adobe monetiza IA da forma mais elegante possível, ou seja, cobrando do assinante que já pagou pelo Photoshop, pelo Illustrator e pelo Premiere, agora um adicional para usar o Firefly, treinado, aliás, em cima das imagens que esses mesmos assinantes subiram para a nuvem da empresa durante uma década inteira. É o cliente pagando três vezes pelo próprio trabalho, e o analista de Wall Street chama isso de crescimento.

Olha, quando um banco de investimento se anima com uma tese, convém desconfiar. Não porque o banco esteja mentindo, e sim porque o banco vive de mover múltiplos, e múltiplos se movem com narrativa. A narrativa da IA generativa é a mais lucrativa da década, um pouco porque produz resultado real, e muito porque virou palavra mágica que justifica qualquer coisa. A Adobe entrou nela cedo, blindou seu ecossistema com contratos de assinatura recorrente, e conseguiu transformar o antigo modelo perpétuo, no qual você comprava uma vez e usava a vida inteira, em uma renda mensal vitalícia que o usuário não consegue cancelar sem perder acesso ao próprio arquivo. Isto não é inovação, é engenharia de aprisionamento com verniz de tecnologia.

O detalhe que o comunicado do banco não menciona, e nenhum release menciona, é que essa mesma Adobe enfrentou revolta pública quando tentou impor termos de uso permitindo escaneamento de arquivos privados dos clientes para treinar seus modelos. Recuou publicamente, reescreveu os termos com prosa mais gentil, e seguiu fazendo exatamente o mesmo, só que com licença assinada em letras miúdas. Quem paga pela ação subir? O assinante que não consegue mais editar um PDF sem passar pela nuvem. Quem lucra com o upgrade da Citizens? O acionista, o executivo bonificado em stock options, e o próprio analista que colocou a meta lá em cima. O consumidor final aparece só na linha de receita, jamais na linha de decisão.

Existe uma diferença brutal entre criar valor e capturar valor, e o capitalismo saudável recompensa o primeiro. Só que quando uma empresa constrói um fosso regulatório, contratual e técnico ao redor do próprio jardim, ela para de competir e passa a arrendar. Adobe hoje é isso, uma cobradora de aluguel digital com camada de IA por cima para justificar o reajuste anual. A concorrência real, aquela feita por ferramentas abertas, modelos livres e alternativas gratuitas, existe, mas o mercado corporativo não migra porque migrar custa mais que apanhar. E o analista chama a apanhada permanente de fundamentos sólidos.

Tem ainda o outro lado da mesa, o dos criadores cujas obras alimentaram os modelos sem consentimento explícito nem remuneração proporcional. A empresa argumenta que só usou material licenciado, e tecnicamente talvez esteja certa, porque o licenciamento foi tácito, embutido no contrato de assinatura que ninguém leu. Traduzindo, o ilustrador de Curitiba que subiu seus rascunhos para a nuvem em 2019 hoje concorre com um modelo treinado nos próprios rascunhos, e paga mensalidade para acessar essa concorrência. Não há nada de invisível aqui, exceto o pudor dos analistas que preferem falar de margem operacional a descrever o mecanismo.

A festa da IA vai continuar enquanto o dinheiro barato pingar e enquanto o assinante corporativo aceitar reajuste sem chiar. Quando o crédito apertar de verdade, e vai apertar, essas teses de crescimento infinito vão passar pelo mesmo funil que passou a bolha das pontocom, a febre do metaverso e a alucinação dos NFTs. O que sobra depois é a ferramenta de fato útil, cobrada por um preço decente, disputada por concorrentes reais. Até lá, cada relatório de banco elogiando IA deve ser lido como o que é, uma nota fiscal disfarçada de análise.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.