A cena é quase enternecedora. Dirigentes que passaram décadas terceirizando prejuízo para o torcedor, empurrando dívida trabalhista para debaixo do tapete e mendigando refinanciamento tributário no Congresso, agora descobrem, num átimo de iluminação cívica, a doutrina da livre iniciativa. O motivo do súbito despertar filosófico não é nenhuma epifania sobre propriedade privada, é o contrato com a casa de apostas que corre risco de minguar caso a Câmara Municipal de São Paulo aprove restrições à publicidade de bets. Quando a torneira ameaça fechar, até cartola vira liberal de ocasião.
Convém desmontar a encenação antes que ela ganhe foro de causa nobre. A indústria de apostas online no Brasil é uma criatura híbrida, meio filhote de regulamentação federal recente, meio bezerro de ouro tributário, engordada a golpe de licença estatal, taxa de outorga e alíquota confessional negociada em gabinete. Não estamos diante do padeiro que quer anunciar o pão na vitrine, estamos diante de um setor que só existe porque o próprio Estado disse que existe, mediante pedágio. O clube que hoje se enrola na bandeira do mercado livre está, na verdade, defendendo um privilégio concedido, não um direito conquistado.
Siga o dinheiro e a fantasia se desfaz. O torcedor médio paga imposto sobre o salário, imposto sobre o consumo, imposto embutido na conta de luz que ilumina o estádio e ainda um adicional simbólico toda vez que aposta os últimos trocados achando que vai acertar o placar exato. Parte desse dinheiro escorre para a plataforma, que devolve migalhas ao clube em forma de patrocínio, que devolve migalhas ao jogador em forma de salário atrasado, e o resto se perde numa cadeia de offshores, operadores e lobistas que sabem exatamente qual vereador atende ao terceiro toque. O torcedor financia o espetáculo em que ele mesmo é a matéria-prima moída.
A defesa retórica é sempre a mesma: sem o dinheiro das bets, o futebol brasileiro entra em colapso. É o velho argumento do refém, aquele em que o sequestrador pede clemência alegando que a vítima morre de fome sem ele. Curioso que os mesmos clubes que hoje choram dependência tenham sobrevivido a décadas sem cassino patrocinando o meião, atravessando ditadura, hiperinflação, plano cruzado e planilha do fisco. O que colapsa não é o futebol, é o modelo de gestão que confundiu administração esportiva com esquema de arrecadação perpétua, terceirizado para quem tiver estômago para pagar a conta do próximo torneio.
A vereança paulistana, por sua vez, não age por vocação libertária ao propor restrição. Age por instinto de manada moralista, que é a outra face da mesma moeda intervencionista. De um lado, o legislador que quer proibir para aparecer na foto de defensor da família. Do outro, o cartola que quer liberar para embolsar a comissão. No meio, sobra o cidadão comum, que não foi consultado sobre nenhuma das duas coisas e continuará pagando pelas duas, seja na forma de anúncio invasivo, seja na forma de nova taxa criada para compensar a receita perdida. Toda vez que o poder público e o poder econômico brigam em praça, quem apanha é quem passa na calçada.
A pergunta honesta, aquela que ninguém no debate se atreve a formular, é elementar: por que uma atividade que só existe por concessão estatal deveria ter tratamento publicitário de refrigerante? E, virando a moeda, por que caberia à Câmara de um município específico legislar sobre o que a camisa de clube profissional pode ou não estampar, num país cujo pacto federativo já é uma colcha de retalhos remendada por medida provisória? A resposta, nos dois casos, aponta para a mesma direção desconfortável. Não se trata de proteger ninguém, trata-se de disputar o espólio. E o espólio, como sempre, saiu do bolso de quem nunca foi convidado para a mesa.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.