A reabertura do Estreito de Ormuz, aquele corredor estreitíssimo por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo do planeta, fez o que nenhum pacote fiscal, nenhuma reunião do Copom e nenhuma live presidencial conseguiriam fazer em uma semana: derrubou o preço do barril, aliviou o prêmio de risco do frete marítimo e devolveu ao mercado uma calma que custou caro para ser perdida. Repare na coreografia. Enquanto o estreito esteve sob tensão, o mundo inteiro foi obrigado a engolir narrativas apocalípticas sobre "novo choque do petróleo", "inflação estrutural global" e "fim do dólar". Bastou o tráfego marítimo voltar ao normal, e os mesmos profetas desapareceram dos jornais como neblina ao sol.

Quem prestou atenção viu a coisa de verdade. O preço do petróleo não é decidido em Brasília, em Washington ou em Bruxelas. É decidido por milhões de decisões descentralizadas de produtores, armadores, refinarias, traders, seguradoras e consumidores que, sem se conhecerem, reagem em tempo real a cada notícia, cada míssil, cada negociação diplomática. Nenhum burocrata, por mais doutorado que tenha, possui essa informação. Ele apenas finge possuí-la para justificar o salário. O sistema de preços é o único computador capaz de processar tudo isso simultaneamente, e ele acaba de processar a reabertura de Ormuz com uma eficiência que envergonha qualquer ministério.

Agora pergunte a si mesmo quem ganhou e quem perdeu durante o pânico. Estatais petrolíferas de países produtores que se beneficiam de barril alto agradeceram a tensão. Empresas de defesa viram suas ações subirem. Governos endividados, como o nosso, encontraram desculpa pronta para repassar reajustes na bomba e culpar "fatores externos". E o consumidor brasileiro, esse personagem que ninguém menciona em coletiva, pagou a conta de cada centavo, sem que a Petrobras tivesse extraído um barril a mais ou refinado um litro a melhor. O choque externo é sempre uma dádiva para quem governa mal, porque transfere a responsabilidade do próprio fracasso para um estreito do outro lado do mundo.

Há aqui uma lição que se repete desde a crise do petróleo dos anos 1970, e que cada nova geração de tecnocratas insiste em ignorar. Quando um corredor logístico crítico é controlado por um regime instável, o mundo inteiro fica refém. A solução nunca foi mais comitê internacional, mais regulação multilateral ou mais "governança global da energia". A solução sempre foi diversificação de rotas, descentralização de fornecedores, abertura de novas fronteiras de exploração e, sobretudo, redução da dependência política de qualquer ponto único de falha. O Brasil, sentado em cima do pré-sal, com capacidade técnica para ser potência energética, escolheu transformar a Petrobras em instrumento de política de preços, projeto ideológico e cabide de empregos. Resultado: cada vez que Ormuz tosse, o brasileiro espirra na bomba.

E veja a ironia que ninguém comenta. Os mesmos analistas que defendem "transição energética acelerada", subsídio bilionário a carro elétrico e desmonte da indústria de combustíveis fósseis foram os primeiros a entrar em pânico quando o petróleo balançou. Quer dizer, o produto que eles juram odiar é o mesmo que continua movendo o mundo, alimentando a frota, aquecendo as casas e, detalhe importante, financiando os próprios subsídios verdes que eles defendem. A reabertura do estreito não apenas remodelou os mercados. Expôs, mais uma vez, a esquizofrenia de uma agenda energética que combate o petróleo com o dinheiro do petróleo e finge que isso é progresso.

A lição final é simples e por isso mesmo será ignorada. Mercados livres absorvem choques, processam informação e se ajustam em velocidade que nenhum planejador central jamais reproduzirá. Crises geopolíticas são reais, doem e cobram preço, mas o sistema de preços é o mecanismo mais sofisticado que a humanidade já produziu para distribuir essa dor da forma menos catastrófica possível. Toda vez que um governo tenta "proteger" o consumidor congelando preço, subsidiando combustível ou estatizando refinaria, ele apenas acumula a dor para descarregá-la de uma só vez mais adiante, geralmente em véspera de eleição alheia. Ormuz reabriu. O barril caiu. E a única coisa que continua estruturalmente cara no Brasil é o custo de ter gente demais decidindo pelo seu bolso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.