Os dados mais recentes do Banco Central Europeu revelam uma cena que deveria envergonhar meio continente: cerca de um terço da riqueza financeira das famílias europeias está parado em depósitos bancários, rendendo praticamente nada, enquanto do outro lado do Atlântico o americano médio tem quase metade do seu patrimônio em ações, fundos e ativos que efetivamente crescem. Na Alemanha, na França, na Itália, a poupança tradicional ainda é tratada como virtude moral, quase religiosa. Em Portugal e na Espanha, a coisa é ainda pior. O europeu médio empilha euros na conta como quem empilha lenha para o inverno, sem perceber que a lenha está apodrecendo por dentro.

Chamam isso de aversão ao risco. Eu chamo de outra coisa. Quando o Banco Central Europeu mantém juros artificialmente comprimidos por mais de uma década, torra o poder de compra da moeda com programas de compra de ativos que fariam um falsificador corar, e depois pede ao cidadão que confie no sistema, o que se produz não é prudência, é lobotomia coletiva. O poupador que deixa dinheiro parado num continente onde a inflação real corrói entre três e cinco pontos ao ano está financiando, sem saber, a farra fiscal dos governos e a expansão eterna da máquina estatal em Bruxelas.

E aqui vale seguir o dinheiro, porque o dinheiro sempre conta a verdade. Se o europeu poupa em depósito, quem usa esse depósito? O banco, que empresta a juro baixinho para o Estado emitir mais dívida. Ou seja, a família alemã que se orgulha de ser econômica está, na prática, subsidiando o déficit italiano, o programa social francês e a burocracia belga. É um esquema de transferência de riqueza tão elegante que ninguém percebe. O americano, com todos os seus defeitos, ao menos entendeu que a economia real acontece nas empresas produtivas, e coloca o dinheiro onde ele trabalha. O europeu coloca onde ele apenas espera, e espera sentado.

Há uma explicação cultural, claro, e ela é interessante. Duas guerras mundiais, hiperinflações traumáticas, colapsos monetários. A memória do marco alemão virando papel higiênico está inscrita no DNA financeiro do continente. Mas o remédio contra a inflação passada virou a doença do presente: a fuga para o depósito bancário, num regime de juros negativos ou zerados, é exatamente o que os bancos centrais queriam para poder continuar financiando gasto público sem resistência. A prudência do avô virou a servidão do neto. O que era escudo virou coleira.

O contraste com os Estados Unidos não é apenas estatístico, é civilizacional. Uma sociedade que investe em capital produtivo cresce, inova, cria empregos de verdade e financia aposentadorias dignas. Uma sociedade que empilha dinheiro em conta corrente envelhece pobre, dependente do Estado, e depois se surpreende quando o mesmo Estado corta pensões alegando insustentabilidade fiscal. A Europa está descobrindo, geração após geração, que a suposta segurança do depósito era a mais insegura das apostas. E a conta dessa descoberta chega em euros desvalorizados, aposentadorias raquíticas e jovens que já não conseguem comprar casa em cidade nenhuma do continente.

No fim, a lição é simples e brutal. Onde o Estado grande convive com moeda inflacionária, poupar em dinheiro é doar aos poderosos. A verdadeira prudência não está em fugir do risco, está em fugir de quem imprime dinheiro para pagar promessas que nunca cumprirá. O europeu chama de conservadorismo aquilo que é, na verdade, a forma mais mansa de suicídio econômico já inventada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.