A notícia chega com aquela naturalidade dos comunicados corporativos que tentam esconder o absurdo debaixo de terminologia técnica. A Continental Resources, uma das maiores petroleiras independentes dos Estados Unidos, fundada pelo bilionário Harold Hamm, fechou acordo para desenvolver reservas de petróleo na Venezuela, o mesmo país que oficialmente ainda é tratado por Washington como narcoestado, ditadura, pária, escolha o adjetivo. Olha, o cinismo aqui é de tirar o chapéu. Durante anos o americano médio ouviu que o regime de Maduro era intragável, que sanções eram morais, que negociar com Caracas era financiar tirania. E de repente, sem aviso, sem debate público, sem sequer um pedido formal de desculpas ao contribuinte que engoliu a narrativa, uma empresa americana está lá, apertando a mão do ditador, discutindo barris.

O que aconteceu, na prática, foi o de sempre: o interesse econômico do lobby energético americano falou mais alto que a retórica moral de quem nunca precisou explicar contradição a eleitor nenhum. As sanções contra a Venezuela nunca foram desenhadas para derrubar Maduro; foram desenhadas para pressionar Maduro até que Maduro aceitasse as condições certas. E as condições certas, todo mundo que acompanha esse jogo há mais de dez anos sabe, envolvem acesso preferencial às reservas da Faixa do Orinoco, uma das maiores concentrações de petróleo pesado do planeta. Ditador ruim é aquele que não deixa o americano entrar; ditador tolerável é aquele que assina contrato. A diferença entre pária e parceiro comercial, no mundo real, cabe num aditivo contratual.

E quem paga a conta dessa reviravolta? Primeiro, o venezuelano comum, que passou uma década sendo esmagado por sanções que empobreceram o país, geraram fome, êxodo de sete milhões de pessoas, colapso do sistema de saúde, e agora vê que tudo aquilo era negociável. Segundo, o americano que acreditou no discurso e defendeu política externa como se fosse cruzada moral. Terceiro, o brasileiro, que assistiu a governos de esquerda serem crucificados por fazer negócio com Caracas enquanto o mesmo negócio, feito por empresa americana, é rebatizado de estabilização regional. Me diz uma coisa: quando Lula recebia Maduro era conivência com ditador; quando Hamm assina contrato com Maduro é diplomacia energética. A hipocrisia tem CEP.

Existe uma lição austríaca antiga e desconfortável escondida nesse arranjo, e é a de que sempre que governo e grande empresa se encontram na mesma sala, o consumidor sai da reunião pagando a diferença. Isso não é livre mercado, isso é capitalismo de compadrio na sua versão geopolítica. A empresa não venceu porque foi mais eficiente; venceu porque tem lobby em Washington capaz de reescrever sanções. O concorrente que respeitou a lei durante anos, que não investiu na Venezuela porque acreditou que sanção era coisa séria, perde o mercado para quem tinha telefone direto no Departamento de Estado. E o pior é que ninguém vai à imprensa dizer que houve captura regulatória; vão dizer que houve maturidade diplomática. Palavras bonitas para transferir riqueza dos ingênuos para os bem posicionados.

O que se vê é o contrato, o barril, a manchete otimista sobre estabilização do mercado energético. O que não se vê são os anos de sofrimento venezuelano tratados como se fossem despesa aceitável de guerra fria de segunda categoria, os concorrentes menores que respeitaram regras e agora descobrem que as regras eram sugestões, o precedente moral criado ao ensinar que princípio geopolítico americano é revisável mediante negociação, e o sinal enviado a todo ditador do planeta de que basta segurar reserva estratégica que a moralidade ocidental aparece para conversar. Sanção não é castigo, é instrumento de barganha; embargo não é princípio, é preço inicial de negociação. Quem entendeu isso primeiro, ganhou.

No fim, a Venezuela vai continuar sendo Venezuela, Maduro vai continuar sendo Maduro, e o petróleo vai continuar fluindo para onde sempre flui, que é para quem tem dinheiro para comprar e influência para transportar. A única coisa que muda é o cartaz na porta. Ontem dizia sanção total, hoje diz parceria estratégica, amanhã dirá o que for necessário. E o americano médio, que financiou décadas de política externa moralista com seus impostos, descobre pela imprensa que estava sustentando uma peça de teatro cujo roteiro era escrito pelos mesmos executivos que agora assinam o contrato. Bem-vindo ao mundo real, onde a bandeira que tremula mais alto é a que cobre o oleoduto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.