Tim Cook, o mesmo sujeito que construiu um império vendendo aparelhos que grudam na mão de criança desde os dois anos de idade, resolveu elogiar publicamente a lei australiana que bane menores de 16 anos das redes sociais. A coisa foi apresentada como preocupação paternal, gesto civilizatório, adulto responsável endossando adulto responsável. Só que quando o dono da loja aplaude a polícia que fecha o vizinho, convém desconfiar. Não é bondade, é estratégia.

Repare no truque. A Apple não vende rede social, vende hardware e cobra pedágio de 30% em tudo que roda dentro dele. Cada minuto que um adolescente passa no TikTok ou no Instagram é um minuto que ele não passa comprando no ecossistema fechado de Cupertino. Se o Estado australiano, com toda a solenidade do parlamento e o peso da multa, empurra o menor para fora dessas plataformas, adivinha para onde ele vai? Para o iMessage, para o FaceTime, para o Apple Arcade, para o que a Apple já controla e monetiza sem precisar dividir com ninguém. É concorrência desleal terceirizada para o governo, e a fatura vem embrulhada em papel de presente com laço de proteção à infância.

O mais delicioso é a mecânica prática. Para saber se o usuário tem menos de 16 anos, alguém precisa saber quem é o usuário. Fim do anonimato, adeus internet aberta, olá documento de identidade digital atrelado a cada login. A rede social vira cartório, o cartório vira pedágio, o pedágio vira dossiê. Uma vez montada essa infraestrutura para pegar adolescente no TikTok, ela fica ali, prontinha, esperando a próxima causa nobre: discurso de ódio, desinformação, opinião divergente do governo do momento. A cerca começa protegendo criança e termina cercando adulto. Sempre foi assim, sempre será.

E há o detalhe visível que ninguém enxerga porque está grande demais. O smartphone que a criança usa para acessar a tal rede social nociva foi vendido pela mesma indústria que agora se declara chocada com o vício em telas. Foi projetado com notificação vermelha, rolagem infinita, dopamina medida em laboratório. A Apple embolsou o lucro do vício por quinze anos e agora aparece de terno cinza pedindo ao Estado que resolva o problema que ela mesma vendeu. É o incendiário elogiando o bombeiro, com a diferença de que o incendiário também fabrica o extintor e cobra pela recarga.

Convém ainda observar quem não foi consultado. Os pais, por exemplo. A premissa da lei é que família australiana é incompetente para decidir o que os próprios filhos assistem, e que o parlamento em Camberra sabe melhor. Cada regulação desse tipo transfere um pedaço de autoridade que era da casa para o balcão do funcionário público, e o cidadão adulto vai sendo lentamente rebaixado à condição de tutelado permanente. Depois reclamam que ninguém mais sabe educar filho, quando o Estado passou trinta anos ensinando que educar filho é atribuição dele.

No fim, sobra a foto: o executivo mais bem pago do Ocidente parabenizando um governo por restringir a liberdade dos cidadãos, e a plateia batendo palma porque a restrição foi vendida como cuidado. É assim que se perde uma civilização, não com tanques na rua, mas com CEO simpático dando entrevista educada sobre o bem das crianças enquanto conta os bilhões que a nova lei vai render. A coleira nunca chega anunciada como coleira. Chega como colar bonito, e quem coloca é sempre alguém sorrindo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.