Há algo de tragicômico, quase shakespeariano, em ver o último regime declaradamente stalinista do planeta transformado em empreiteira de mão de obra descartável para o vizinho czarista. Pyongyang, que passou setenta anos berrando contra o imperialismo e a mercantilização do ser humano, agora aluga seus próprios súditos a peso, por hora e por corpo estraçalhado nas trincheiras de Kursk. O negócio, ao que parece, é excelente. Cada soldado enviado rende ao Estado norte-coreano cerca de dois mil dólares mensais, dos quais o próprio soldado, se sobreviver, verá talvez um punhado de wons desvalorizados. O resto vai direto para o cofre da família reinante, que usa o dinheiro para financiar programas balísticos, satélites de espionagem e, claro, os banquetes de conhaque francês servidos entre discursos sobre a pureza revolucionária do povo trabalhador.

A operação é de uma elegância cínica que faria corar qualquer traficante de escravos do século dezoito. Moscou precisa desesperadamente de carne para alimentar a máquina de moer que virou sua aventura ucraniana; Pyongyang tem carne de sobra e nenhum pudor em vendê la. O acordo é limpo: rublos, petróleo, tecnologia militar e componentes eletrônicos entram pela fronteira norte, munição, mísseis e infantaria descartável saem pelo mesmo caminho, no sentido contrário. É a globalização perfeita, aquela que os manuais escolares condenam quando envolve uma fábrica de tênis em Bangladesh, mas ninguém comenta quando envolve regimentos inteiros de rapazes analfabetos sendo trocados por peças de radar.

E aqui vale a pergunta que a imprensa educada nunca faz: quem paga e quem recebe? Paga, primeiro, o soldado norte-coreano de dezenove anos que morre num descampado gelado sem saber direito onde fica a Ucrânia no mapa. Paga, em segundo lugar, o contribuinte russo, cuja carga tributária já está sustentando uma guerra e agora sustenta também os salários da corte de Pyongyang. Paga, em terceiro, o contribuinte ucraniano, que compra o soldado do outro lado com o próprio suor. E paga, em quarto, o contribuinte ocidental, que financia via socorros bilionários o buraco que a guerra abre no orçamento de Kiev. Quatro populações sangrando impostos para que dois autocratas fechem um contrato de terceirização de matança. Recebe, no fim da fila, quem já recebia antes: a nomenklatura em Moscou, a dinastia em Pyongyang, e o complexo militar industrial de ambos os lados, que nunca teve tempos tão gordos.

O detalhe delicioso, aquele que denuncia a farsa toda, é observar o destino dos lucros. O dinheiro não vai para hospitais rurais, não vai para escolas, não vai para o campesinato que ainda come casca de árvore em anos ruins. Vai para dois lugares específicos: os programas de armamento estratégico, porque a bomba é a única apólice de seguro que a dinastia conhece, e os projetos de vaidade urbana da capital, esses arranha céus vazios que servem de cenário para os documentários de propaganda. Isto é, os norte coreanos morrem na Ucrânia para que outros norte coreanos possam ser filmados sorrindo em frente a prédios onde ninguém mora. Se existe metáfora mais perfeita do socialismo real, ainda não a inventaram.

Há quem argumente, com aquela voz doce dos analistas de relações internacionais, que se trata apenas de pragmatismo geopolítico, de países isolados que se ajudam mutuamente contra o cerco ocidental. É a versão diplomática do velho ditado segundo o qual, quando dois bandidos se abraçam, é sempre a vítima que apanha. O cerco existe, sim, mas foi construído tijolo por tijolo pelas próprias vítimas do cerco, que passaram décadas ameaçando o resto do mundo com aniquilação nuclear e depois se surpreendem quando o resto do mundo não os convida para o jantar. A retórica anti imperialista serve de verniz para uma operação que qualquer mercador fenício reconheceria de imediato: vender o que se tem em abundância, no caso, gente sacrificável, em troca do que se deseja obter, no caso, poder de fogo.

O que fica, no fim, é o retrato acabado do Estado moderno em sua forma mais pura, sem os filtros e os disfarces que o Ocidente ainda mantém por decência. Um monopólio territorial da violência que trata seus próprios cidadãos como estoque, negocia esse estoque com outros monopólios da mesma espécie, e depois posa de defensor da nação. A diferença entre Pyongyang e as democracias envergonhadas é apenas de grau e de vocabulário; a lógica é idêntica. Onde há Estado grande, há sempre alguém pagando com o próprio corpo aquilo que a elite promete pagar com discursos. E enquanto durar o contrato, os foguetes vão continuar subindo sobre o Mar do Japão, financiados pelo sangue de meninos que nunca chegaram a saber por que morreram, nem para quem.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.