O índice preliminar de gerentes de compras da Índia veio forte de novo em setembro, com a atividade privada acelerando em manufatura e serviços, e os empresários indianos contratando no ritmo mais rápido dos últimos anos. Não é milagre, não é sorte, não é bênção do monção. É o resultado previsível de um país que passou a última década cortando burocracia, digitalizando tributo, abrindo o comércio para valer e, sobretudo, deixando o empresário respirar sem um fiscal da Receita puxando cadeira ao lado da mesa.
Enquanto Nova Délhi entende que crescimento se colhe onde se plantou liberdade econômica, Brasília ainda debate se o problema do país é a falta de um novo programa federal com sigla de três letras. A Índia tem população maior, desigualdade pior, infraestrutura sofrível e um sistema de castas que sobreviveu a milênios. E, ainda assim, cresce. Por quê? Porque em algum momento os indianos entenderam algo que os nossos economistas de estatal fingem não saber: prosperidade não é decreto, é consequência. Consequência de contratos que se cumprem, de moeda que não é impressa como panfleto de campanha, de impostos que não punem quem produz e de um Estado que se lembra, de vez em quando, do lugar dele.
Repare no detalhe que os jornais econômicos brasileiros vão evitar contar: o motor da expansão indiana é a manufatura e a exportação de serviços, dois setores que aqui foram sistematicamente estrangulados por câmbio irreal, encargo trabalhista medieval e uma indústria que virou refém do BNDES, essa maravilha de banco público que empresta dinheiro do contribuinte para escolher, no varejo, quem vai ganhar e quem vai quebrar. A Índia entendeu que o Estado não sabe escolher vencedor, então parou de tentar. O Brasil, teimoso, continua achando que a economia é um tabuleiro e que o ministro é o jogador.
Siga o dinheiro e a história fica ainda mais constrangedora. Todo real que o governo brasileiro toma emprestado para financiar o programa social da moda é um real que não vai virar máquina em galpão, contrato de terceirização, salário de engenheiro júnior ou capital de giro para a padaria da esquina. O crescimento indiano existe porque a poupança dos indianos está financiando os indianos, não a próxima aventura do Tesouro. Aqui, a poupança nacional é sequestrada pela dívida pública com juro real que ridiculariza qualquer investimento produtivo. Depois reclamam que o brasileiro não empreende. Empreende como? Concorrendo com Selic?
Há também o detalhe que ninguém quer enfrentar: o PMI indiano sobe num momento em que o mundo desglobaliza, cadeias de produção se realinham fora da China e as multinacionais procuram destinos com regra clara e mão de obra jovem. A Índia se posicionou como alternativa. O Brasil se posicionou como debate de reforma tributária que ninguém entende, com sub-alíquotas para queijo mineiro e regime especial para clube de futebol. É a diferença entre um país que resolveu crescer e outro que resolveu legislar sobre o crescimento alheio, imaginando que a lei substitui o esforço.
O recado que vem de Nova Délhi é simples e antipático para quem gosta de comitê interministerial. Onde o Estado recua, a iniciativa privada avança. Onde o burocrata se cala, o produtor fala com preço, contrato e emprego. E onde se entende que ninguém do alto de um gabinete jamais soube alocar recurso melhor do que milhões de pessoas decidindo, uma a uma, com o próprio bolso em risco, a economia responde. A Índia está provando isso em tempo real, com números que não pedem licença. O Brasil, esse, segue esperando o próximo pacote salvador. E o próximo. E o próximo depois do próximo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.