O CTO do Pentágono, homem que dorme e acorda pensando em como os Estados Unidos vão manter a dianteira tecnológica contra a China, veio a público dizer uma obviedade que virou heresia: o governo não deve ter participação acionária em empresas de inteligência artificial. Repare bem no timing. Enquanto Washington discute se o Estado deve pegar pedaços de Intel, de fabricantes de chip, de laboratórios de IA em nome da "segurança nacional", justamente o sujeito que precisaria dessas empresas rodando no talo para vencer uma guerra tecnológica é quem levanta a mão e diz, não, obrigado, fiquem com suas ações.

Por que essa declaração é sismográfica? Porque toda vez que o Estado compra participação em uma empresa privada, muda quem manda ali dentro. Deixa de ser o cliente que decide, deixa de ser o engenheiro que resolve, deixa de ser o investidor que aposta. Passa a ser o burocrata que precisa justificar cada centavo em audiência pública, o senador que quer contrato para o estado dele, o comissário que exige diversidade no algoritmo, o auditor que trava desenvolvimento por seis meses até liberar o próximo release. A empresa que ontem competia com a Nvidia amanhã concorre com a fila de espera do TCU americano.

E aqui vale seguir o dinheiro, porque toda vez que se fala em "participação estratégica do Estado" em tecnologia, aparece o mesmo padrão. Alguém, muito bem posicionado, vai receber. O contribuinte, muito mal informado, vai pagar. A empresa que recebe o carinho estatal deixa de precisar convencer clientes e passa a precisar convencer políticos, dois esportes completamente diferentes. Um exige entregar produto que funcione. O outro exige jantar com quem assina o cheque. Adivinhe qual dos dois produz iPhone e qual produz Correios.

Tem gente que ainda acredita naquela lenda de que grandes saltos tecnológicos vêm do Estado. É uma meia-verdade contada por quem precisa justificar o próprio salário. O Estado americano financiou pesquisa básica, sim, mas quem transformou silício em civilização foi gente de garagem, capital de risco disposto a perder tudo, e mercado livre para premiar quem acertava e punir quem errava. Quando o governo entra como sócio, ele muda o critério de sucesso. Deixa de ser "o produto vendeu" e vira "o produto atende aos requisitos do edital". São coisas radicalmente distintas, e uma delas produz estagnação com nome pomposo.

O que se vê quando o Estado compra ações de uma tech é a manchete festiva, o comunicado oficial, o presidente sorrindo ao lado do CEO. O que não se vê é o concorrente menor que desiste porque não tem lobista em Washington, o engenheiro brilhante que vai para outro setor porque odeia reunião com burocrata, o produto que nunca nasce porque o comitê de ética governamental achou "prematuro". A conta dessa invisibilidade é astronômica, e quem paga não são os planejadores iluminados, é o consumidor comum que, dez anos depois, se pergunta por que ficou para trás.

Que a lição vinda do Pentágono chegue a Brasília, embora a esperança seja pequena. Aqui a mesma turma que perdeu Petrobras, Eletrobras e meia dúzia de estatais para aparelhamento agora quer criar uma "IA soberana" com dinheiro público, conselho tripartite e comitê de acompanhamento parlamentar. Vai dar tudo certo, claro. Da última vez que o Estado brasileiro decidiu ser protagonista tecnológico, produziu a reserva de mercado de informática nos anos 80 e nos atrasou uma década. Quando o próprio Pentágono avisa que essa receita não funciona, ignorar o aviso não é ousadia, é burrice com verba.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.