A notícia é curta e o significado é longo. A ChangXin Memory Technologies, a queridinha subsidiada do Partido Comunista Chinês, anunciou que vai expandir sua linha para chips de memória flash, o famoso NAND, justamente no momento em que o mundo inteiro grita por escassez desse componente. Quer dizer, enquanto o Ocidente descobre que dependência de semicondutor é problema estratégico e responde com comitês, seminários e subsídios pulverizados em consultoria, a China responde produzindo. Simples assim. E o pior: com dinheiro que, em boa parte, saiu do bolso do consumidor americano e europeu que financiou por décadas a industrialização chinesa comprando bugiganga barata na Amazon.
Olha, é preciso entender o que está acontecendo aqui sem a maquiagem dos comunicados oficiais. A CXMT não é uma empresa no sentido burguês do termo. É um braço industrial do Estado chinês fantasiado de S.A., que opera com custo de capital próximo de zero, terra doada, energia subsidiada e cliente cativo garantido por decreto interno. Ela entra no mercado de NAND não porque descobriu uma vantagem competitiva genuína, mas porque o planejador central em Pequim decidiu que a China precisa ter essa peça no tabuleiro. É o velho truque do dumping estratégico: inunda o mercado global, quebra os concorrentes reais na Coreia, no Japão e nos Estados Unidos, e depois cobra o preço que quiser quando ninguém mais souber fazer.
Me diz uma coisa: quantas vezes o Ocidente vai cair no mesmo golpe? Foi assim com painel solar, foi assim com terras raras, foi assim com o aço, foi assim com a bateria de lítio, foi assim com o drone civil. Sempre a mesma história: um setor onde a livre concorrência produziria preço justo e inovação distribuída é sequestrado por uma potência estatista que joga com dinheiro impresso e concorrentes forçados a competir de mãos amarradas pelo próprio governo, que os regula, tributa e ainda os ensina a não parecerem racistas por se preocupar com segurança nacional. O resultado é sempre o mesmo, e a surpresa dos analistas contratados também.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais grotesca. O consumidor final americano paga imposto para financiar o CHIPS Act, que subsidia a Intel e a Micron, que competem com a CXMT, que é subsidiada pelo governo chinês, que se financia vendendo títulos comprados em parte pelos fundos americanos, que aplicam a poupança do mesmo consumidor. Ou seja, você paga duas vezes: uma para produzir e outra para não produzir. E no meio do caminho, uma casta inteira de burocratas, consultores, lobistas e ONGs de "resiliência de cadeia" vive muito bem, obrigada. É a definição perfeita de pilhagem legalizada travestida de política industrial.
A parte que ninguém quer discutir é a mais óbvia. A escassez de NAND não caiu do céu. Ela é fruto direto de anos de má alocação de capital induzida por juros artificialmente baixos, que financiaram investimento em qualquer coisa que rendesse dividendo trimestral e desincentivaram capex pesado, de longo prazo, em fábrica de verdade. Ao mesmo tempo, o excesso de regulação ambiental, trabalhista e de compliance nos países ocidentais transformou abrir uma fábrica de semicondutor em odisseia jurídica de dez anos. A China não tem esse problema porque, quando o comitê central decide, o comitê central constrói. Não é virtude do modelo deles; é vício suicida do nosso.
E aqui está a lição que ninguém em Brasília, Bruxelas ou Washington quer aprender: mercado livre com moeda sã e propriedade respeitada teria produzido oferta abundante de memória flash muito antes de qualquer escassez aparecer no horizonte. Foi a intervenção, a impressora, o subsídio cruzado e o pânico regulatório do lado de cá que abriram a porta para o dirigismo do lado de lá encher o mercado com produto barato de origem duvidosa. Enquanto o Ocidente discutir semicondutor como se fosse questão de gênero e clima, a China vai continuar entregando o produto. E um dia, quando quiser cobrar a fatura, ela vem inteira, com juros e com bandeira vermelha.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.