A cena se repete como liturgia. Analista de banco sobe numa tribuna, reitera recomendação de compra, ajusta preço-alvo pra cima, e o rebanho de gestores balança a cabeça em aprovação como se tivesse recebido revelação divina. Desta vez a bola da vez é a O'Reilly Automotive, rede americana de autopeças que teve seu "dia do analista" e saiu de lá com o carimbo de bênção da D.A. Davidson. Compra, compra, compra. E ninguém, absolutamente ninguém, para pra perguntar a coisa mais elementar do universo: por que diabos uma empresa que vende vela de ignição e pastilha de freio virou o novo El Dorado de Wall Street?
A resposta está escondida em plena luz do dia, e é constrangedora pra quem gosta de fingir que a economia americana vai bem. Autopeças de reposição não vendem quando as pessoas estão comprando carro novo. Vendem quando as pessoas estão consertando o carro velho porque não têm dinheiro pra outro. A idade média da frota americana bateu recorde histórico, passou dos doze anos e continua subindo. Isso não é sinal de prosperidade, é sinal de que o cidadão médio olha pra prateleira de concessionária e vira as costas porque a parcela não cabe no orçamento estrangulado pela inflação acumulada de cinco anos de gastança fiscal desenfreada e emissão monetária que faria corar até banqueiro central de república bananeira.
E aí a mágica se completa. A mesma máquina de imprimir dinheiro que empobreceu o trabalhador, que fez a gasolina dobrar, que triplicou o preço do carro usado, é a mesma que agora infla o múltiplo da empresa que lucra com essa penúria disfarçada. O analista não está errado no diagnóstico técnico, a empresa realmente tem margem invejável, gestão competente, recompra agressiva de ações. O que o analista não diz, porque não é pago pra dizer, é que essa margem toda existe porque o americano do interior de Ohio está segurando a picape de 2011 na base do reparo caseiro enquanto vê o preço da despensa dobrar. É lucro construído sobre osso quebrado alheio, e chamam isso de tese de investimento.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais interessante. Quem detém posições relevantes em varejo de reposição automotiva? Os mesmos fundos que financiam campanha de político que vota expansão de déficit, os mesmos que se beneficiam da política monetária frouxa, os mesmos que ganham quando a moeda derrete e o ativo real sobe. O ciclo é perfeito, quase artístico na sua sordidez. Estraga-se a moeda, empobrece-se a base, e depois vende-se ação da empresa que atende essa base empobrecida como se fosse descoberta de gênio. Não é gênio, é engenharia de saque. E o pior é que funciona, porque a plateia aplaude sem entender que ela mesma é o boi que está sendo tosado no processo.
O que ninguém enxerga, porque o barulho da bolsa abafa, é o carro que não foi comprado, a fábrica de montadora que demitiu turno, a concessionária de bairro que fechou. Isso não sai em manchete otimista, não vira thesis de investimento, não gera comissão de corretagem. Fica ali, invisível, na estatística que ninguém publica com destaque. Enquanto isso, o índice sobe, o analista ganha bônus, o gestor bate benchmark, e o americano médio troca a bateria pela quinta vez achando que a economia dele que está errada, quando na verdade o dinheiro dele é que foi roubado devagarinho por decreto.
No fim das contas, a recomendação de compra da D.A. Davidson pra O'Reilly não é uma análise, é um atestado. Atestado de que o modelo econômico ocidental atual só sabe crescer transferindo riqueza de quem produz pra quem intermedia, de quem trabalha pra quem especula, de quem paga imposto pra quem recebe subsídio disfarçado de política monetária. A empresa é ótima, o negócio é sólido, o retorno vem. Mas cada dólar de valorização daquela ação carrega dentro de si o suor de um americano que não pôde trocar de carro porque o governo dele decidiu ser generoso com dinheiro que não tinha. Aplauda quem quiser, eu prefiro contar quem está pagando.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.