Subiu ao palco do Rock in Rio uma performance que se vendeu como ousada, corajosa, transgressora. Uma figura fantasiada de cavalo preto distribuía cédulas falsas à plateia enquanto a cantora entoava seus versos, numa alegoria evidente ao filho do ex-presidente e ao banqueiro do momento, envolvidos no escândalo do Banco Master. A imagem é forte, o gesto é teatral, e a militância aplaude convicta de que assistiu a um ato de rebeldia. Só que a rebeldia genuína raramente acontece dentro de um festival patrocinado por bancos, seguradoras e estatais que engordam com o mesmo sistema que a artista finge combater.
A denúncia contra o cavalo preto financeiro seria devastadora se não fosse encenada sobre um tablado erguido justamente pela engenharia que ela pretende expor. O Rock in Rio é máquina bilionária lubrificada por incentivos fiscais, por Lei Rouanet, por patrocínios de instituições que sobrevivem à custa de decisões regulatórias tomadas em Brasília. A cada nota falsa distribuída pelo figurante mascarado, dezenas de milhões de reais verdadeiros circulavam nos bastidores em contratos, isenções e renúncias fiscais que ninguém teve coragem de encenar. O cavalo preto de verdade estava ali, mas ninguém o viu, porque ele pagava a conta da luz.
Existe uma coreografia previsível nesses gestos. O artista escolhe cuidadosamente o inimigo, sempre à direita, sempre distante, sempre inofensivo à estrutura que o sustenta. Nunca se vê no palco do Rock in Rio uma performance contra o Fundo Nacional de Cultura, contra as verbas discricionárias que decidem quem canta e quem cala, contra o sistema tributário que transforma o cidadão médio em servo de uma casta de operadores financeiros que orbitam o Tesouro. A crítica é seletiva porque a mão que alimenta não se morde. Denunciar Vorcaro custa aplauso; denunciar o BNDES custaria o cachê.
É a velha alquimia da indignação lucrativa. Vender-se como voz dos oprimidos enquanto se cobra ingresso a setecentos reais para uma multidão que endividou o cartão para assistir. Fingir combate ao capital enquanto se depende, integralmente, do capital subsidiado. A plateia sai de lá convencida de que participou de algo grandioso, quando na verdade pagou para ver uma pantomima que não incomoda ninguém no andar de cima. Os verdadeiros beneficiários do escândalo do Master continuarão jantando em Paris, e a moça do cavalo continuará recebendo cachês pagos com dinheiro que saiu, direta ou indiretamente, do bolso do trabalhador que trocou o gás pelo ingresso.
A história é pródiga em bufões de corte que se acreditavam revolucionários. Faziam piadas com o rei enquanto comiam à sua mesa, e o rei ria junto porque sabia que o riso do bufão era o melhor pára-raios contra a revolta genuína. É essa a função social do artista engajado contemporâneo: transformar a raiva legítima do povo em espetáculo domesticado, em catarse controlada, em militância de fim de semana que não deixa cicatriz alguma no sistema. Quanto mais ruidosa a performance, mais silencioso o cofre. Quanto maior o cavalo de papelão no palco, menor a chance de alguém apontar para o cavalo de verdade nos camarotes.
Quem paga esse show, no fim das contas, é quem sempre paga: o pagador de imposto anônimo, o consumidor esfolado, o pequeno empresário sufocado por uma regulação feita sob medida para os amigos do rei. Quem recebe é quem sempre recebe: a artista com seu cachê generoso, o produtor com sua isenção fiscal, o patrocinador com sua vantagem regulatória, o político com sua foto ao lado do ídolo pop. O cavalo preto distribuía dinheiro falso ao público, e o público não percebeu a ironia perfeita: o dinheiro que ele levou para casa depois, comprado ao preço do ingresso, também era, em larga medida, uma ficção sustentada por um governo que imprime, tributa e redistribui para os seus. A plateia foi ao Rock in Rio ver o rei ser humilhado. Voltou para casa sem perceber que o rei também tinha comprado ingresso.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.