Setenta e seis por cento dos brasileiros acham que ministros do Supremo têm poder demais. A pesquisa foi feita entre oito e dez de setembro, custou dinheiro, ocupou entrevistadores, gerou manchete, e chegou a uma conclusão que qualquer taxista de Brasília cospe entre uma corrida e outra: onze sujeitos vitalícios, indicados pelo compadrio presidencial e sabatinados por um Senado que confunde arguição com puxação de saco, decidem sobre a vida, o bolso e a liberdade de duzentos e três milhões de habitantes. O espantoso não é o número. O espantoso é que ainda existam vinte e quatro por cento sinceramente convictos de que está tudo em ordem.

E aí vem a segunda camada, a mais deliciosa, a que expõe o mecanismo: setenta e um por cento consideram essa mesma Corte essencial para a democracia. Traduzindo do idioma da pesquisa para o português dos vivos: o cidadão acha que o senhor de toga tem poder demais, mas não consegue imaginar a vida sem ele. É o refém que agradece ao sequestrador pelo café da manhã. É o servo medieval que jura fidelidade ao barão porque, afinal, quem protegeria a aldeia dos bárbaros senão o próprio barão que cobra o tributo para não ser bárbaro? A engenharia da submissão voluntária funciona há dois mil anos e continua imbatível.

Vale seguir o dinheiro, porque é ali que a fantasia desmorona. Cada ministro custa aos cofres públicos, entre salário, penduricalhos, auxílio moradia, auxílio livro, auxílio paletó, auxílio respiração, muito mais do que o teto constitucional que eles próprios juraram defender. A conta anual da Corte passa fácil de um bilhão e meio de reais, sem contar o cortejo de assessores, motoristas, seguranças e o exército de estagiários que escreve as decisões que o togado assina no intervalo entre uma palestra de cachê e outra. Quem paga? O sujeito que trabalha catorze horas para levar o salgado para casa. Quem recebe? A casta que decide, em nome desse mesmo sujeito, que ele não pode escolher o próprio médico, o próprio remédio, a própria escola, a própria opinião nas redes sociais.

Existe uma peça retórica antiga, quase um truque de mágica, que consiste em confundir instituição com função. Dizem que sem a Corte não há democracia, como se dissessem que sem inquisidor não há fé. A função de guardar a Constituição é uma coisa; a instituição concreta, com seus onze donos vitalícios legislando por decisão monocrática, é outra bem diferente. O silogismo é elementar: se o poder que decide sobre todos deve ser controlado por todos, e se onze pessoas não escolhidas por ninguém decidem sobre todos sem controle de ninguém, então essa configuração é o oposto exato do que se anuncia na fachada de mármore. As coisas são o que são, não o que a placa na porta afirma que são.

O truque mais fino, no entanto, é o da alfândega da linguagem. Chamam de ativismo o que é legislação disfarçada, chamam de interpretação o que é vontade nua, chamam de guardião o que é senhor. E quando o povo, mesmo anestesiado por três décadas de catecismo cívico obrigatório, ainda assim consegue enxergar o excesso e apontar setenta e seis por cento de desconforto na pesquisa, o próprio establishment usa esse número para pedir mais reverência, mais respeito, mais silêncio. É o bandido que, flagrado com a mão no bolso alheio, exige lei mais dura contra quem grita “pega ladrão”.

Resta então a pergunta que abriu e fecha tudo, a mesma que qualquer cabeça bem ajustada faria diante do primeiro imposto cobrado pelo primeiro rei da primeira aldeia: quem paga e quem recebe? Paga o comerciante multado por vender sem alvará, o pai de família que perde o emprego porque a decisão liminar quebrou o setor, o cidadão que teve o perfil derrubado porque um gabinete anônimo decidiu que sua ironia era crime. Recebe a casta togada, seus advogados amigos, seus jornalistas domesticados e o ecossistema inteiro de intelectuais assalariados que explicam, com voz grave, por que a servidão é liberdade. Setenta e seis por cento já perceberam. Falta agora perceber que perceber não basta.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.