Na segunda-feira, a Definium sobe ao palco com os resultados de fase 3 de um candidato a tratamento para transtorno de ansiedade, e o roteiro já é conhecido de cor. Vai ter apresentação lustrosa, gráfico de barras favorável, endpoint primário atingido "com significância estatística", e uma horda de analistas comprando a narrativa antes de ler o release. O nome do jogo é sempre o mesmo, muda só o ticker. E o pequeno investidor, coitado, entra achando que está apostando em ciência quando na verdade está apostando em coreografia.

Olha, o mercado de psicofármacos é o paraíso das promessas circulares. Cada dez anos surge uma nova molécula prometendo revolucionar o tratamento da ansiedade sem os efeitos colaterais do anterior, que por sua vez tinha prometido revolucionar o tratamento sem os efeitos colaterais daquele que veio antes. É a esteira rolante da indústria: você paga caro para ficar exatamente no mesmo lugar. E o mais engraçado é que ninguém pergunta por que uma sociedade produtiva, próspera e supostamente iluminada precisa dopar uma parcela crescente da própria população só para conseguir levantar da cama.

Quer dizer, siga o dinheiro e o quadro se desenha sozinho. Fase 3 custa fortuna, e essa fortuna não sai do bolso do executivo, sai do capital de investidores que precisam ver retorno, o que significa que o resultado precisa ser vendável, o que significa que o desenho do estudo precisa ser generoso, o que significa que a métrica escolhida precisa ser aquela que o composto tem chance real de bater. O placebo, no meio disso, é decoração. Ninguém desenha um ensaio de fase 3 para descobrir a verdade; desenha para confirmar a hipótese que já foi vendida em roadshow. E depois vem a agência reguladora, que emprega gente que amanhã vai trabalhar na farmacêutica, e o círculo se fecha com aperto de mão.

Me diz uma coisa: quando foi que combinamos que a ansiedade generalizada de metade do ocidente é problema químico e não problema civilizacional? A pessoa vive endividada até o pescoço graças à inflação fabricada pelo banco central, trabalha para pagar imposto que financia burocrata que a regula, mora em cidade feia porque o planejador destruiu o centro histórico, foi criada sem pai porque o Estado subsidiou a ausência dele, e no fim do dia recebe a fatura de que o problema é serotonina. É a versão farmacológica do velho truque: o incêndio foi causado pelo próprio bombeiro, e agora ele vende a mangueira.

Não que a molécula da Definium seja necessariamente ruim, isso o dado dirá, com todas as ressalvas de quem já viu o dado dizer o que o patrocinador queria. O ponto é outro. É que a euforia em torno do anúncio de segunda revela uma sociedade que terceirizou a própria alma para o balcão da farmácia e para a mesa de operações. Quem compra o papel na expectativa do "beat" está apostando que outros milhões de seres humanos continuarão suficientemente miseráveis para justificar o preço-alvo. É um modelo de negócio que precisa do sofrimento alheio como matéria-prima, e ninguém no relatório do sell-side tem coragem de escrever isso em letras miúdas.

Então, na segunda, o show começa. Vai ter manchete otimista, vai ter salto na pré-abertura, vai ter analista dizendo "resultado transformador", vai ter fundo comprando na alta para não ficar de fora. Meses depois, quando o mundo real cobrar sua fatura, sob a forma de eventos adversos subnotificados, de eficácia que evapora no consultório, de reembolso que o sistema de saúde recusa, o papel corrige, os executivos vendem a tempo, e o pequeno investidor descobre que ciência aplicada e engenharia financeira são coisas distintas. A ansiedade que sobrar, ele trata com o próximo comprimido que estiverem lançando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.