A cena já virou rotina naquele prédio de mármore em Brasília, onde onze senhores vitalícios se acham herdeiros da sabedoria universal. Abrem a boca, invocam um nome grego de dois milênios e meio atrás, e usam o cadáver ilustre como escudo para blindar a canetada mais rasteira. É o velho truque do vigarista de tabuleiro: enquanto você admira a erudição da frase de efeito, a mão dele já entrou no seu bolso. A filosofia, que nasceu para libertar o homem da caverna, é sequestrada para reforçar as correntes.
Chamar isso de má-fé intelectual é ser generoso. É pilhagem simbólica. O sujeito que decreta prisão sem crime tipificado, que criminaliza opinião, que amplia a própria jurisdição num movimento de anfíbio faminto, tem a coragem de recorrer ao pensamento que fundou a lógica formal no Ocidente. Ora, a lógica é justamente aquilo que denuncia o que ele faz. Premissa maior: o poder deve estar submetido à lei. Premissa menor: aquele tribunal legisla, executa e julga simultaneamente. Conclusão inevitável: não estamos diante de um tribunal, mas de uma oligarquia togada que se autodenomina república.
Os romanos, que entendiam de decadência mais do que qualquer povo antes ou depois, tinham um nome para isso: usurpação. Quando o senado deixou de ser senado e virou balcão de bajulação imperial, a fórmula era sempre a mesma. Citavam-se os antigos com fervor, invocavam-se as virtudes republicanas, e no parágrafo seguinte se legalizava mais uma barbaridade. A diferença é que naquela época pelo menos havia o pudor de escrever em latim, para que o povo não entendesse. Aqui a chacota é feita em português claro, na cara do contribuinte que paga o cafezinho, o palácio, o helicóptero e o auxílio-livro.
E siga-se o fio da meada, porque ele leva sempre ao mesmo lugar. Quem financia essa procissão de sábios de araque? O sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus. A costureira que emite nota fiscal tremendo, sabendo que metade da fatura vai virar salário de assessor de gabinete. O pequeno empresário que fecha as portas porque a regulação do mês tornou seu ramo inviável, enquanto lá em cima se debate, com pompa filosófica grega, se é permitido ou não ter opinião divergente na rede social. Cada citação erudita naquelas sessões custa, em termos reais, a poupança de uma família que jamais leu uma linha do autor invocado, mas cujo suor sustenta o palco onde ele é profanado.
O detalhe mais amargo é que os pensadores citados quase sempre defenderam exatamente o oposto do que a canetada consuma. O elogio da prudência vira desculpa para o arbítrio. A defesa da virtude cívica vira álibi para o corporativismo mais chinfrim. A tal justiça distributiva, que nos textos originais pressupunha mérito e proporção, é retorcida até virar a bênção da distribuição do dinheiro alheio para os amigos do rei. É o mesmo procedimento do falsário que assina Rembrandt num quadro pintado com o pé: a assinatura empresta prestígio, e o comprador desavisado paga o preço da tela original acreditando ter feito um bom negócio.
Resta-nos, aos que ainda insistem em pensar, uma única defesa: recusar o encanto. Rir na cara da solenidade fingida. Lembrar em voz alta que o rei está nu, e que a púrpura filosófica com que ele se enrola é feita de retalhos roubados de bibliotecas que ele nunca frequentou de verdade. O dia em que essa multidão vitalícia perder o monopólio da última palavra, muitos livros clássicos poderão finalmente descansar em paz nas prateleiras, livres da indignidade de servirem como cabide de tirania de terceira categoria.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.