A DFS Furniture, varejista britânica de sofás que ninguém confunde com estrela da bolsa, fechou o período com lucro 48,7% maior e cortou £38 milhões do endividamento líquido. Em um Reino Unido onde a inflação corrói a renda, os juros do Banco da Inglaterra estrangulam o crédito e metade do varejo grita por socorro estatal, uma empresa que vende poltrona reclinável decidiu fazer algo insólito: dar lucro e pagar dívida. É o tipo de notícia que a imprensa econômica de terno bem cortado enterra na página 14, porque contraria a narrativa oficial de que sem intervenção do Tesouro ninguém sobrevive.
Olha, o que aconteceu ali é a coisa mais banal do capitalismo funcionando: alguém acertou o que o consumidor queria, ajustou o custo, aparou gordura e entregou margem. Nenhum comitê em Whitehall previu isso. Nenhum think tank recomendou. Nenhum ministro cortou fita. O sujeito que decide comprar um sofá de £700 sabe mais sobre a própria sala do que qualquer economista-chefe do Tesouro britânico jamais saberá sobre o país inteiro, e é essa multidão de decisões dispersas que separa a empresa que prospera da que quebra. Preço é informação; margem é sinal; lucro é veredicto. Quem escuta, cresce. Quem pede subsídio, definha.
Repare no detalhe que quase ninguém comenta: a redução de dívida. Em uma era em que Estado britânico, empresa zumbi e consumidor endividado brigam pelo mesmo funding a taxas que teriam feito qualquer avô vitoriano desmaiar, abater £38 milhões de passivo é ato de disciplina quase subversivo. O governo do Reino Unido, com sua dívida beirando 100% do PIB, faz exatamente o oposto: rola, refinancia, imprime pelo Banco da Inglaterra e empurra a conta para a próxima geração. A DFS, obrigada a operar sob as leis reais da aritmética porque não tem impressora, fez o que qualquer pai de família responsável faz depois do Natal: pagou o que devia.
E aqui aparece a lição que os articulistas do Guardian não vão escrever nunca. Enquanto varejistas mimadas pelo Estado passaram a última década pedindo redução de business rates, crédito subsidiado, moratória de aluguel e sabe-se lá que mais bondade fiscal, os que apanharam do mercado sem colo aprenderam a operar enxutos. Quando o dinheiro barato acabou, quem dependia da mamadeira monetária virou zumbi corporativo, aquele morto-vivo que consome capital, mão de obra e espaço de prateleira sem entregar nada, sustentado apenas pelo juro artificialmente baixo. Retirado o cateter, morrem. A DFS, que não vivia de cateter, respira.
Me diz uma coisa: quantas vezes você leu que "o consumidor está apertado, o setor precisa de estímulo"? Pois é, o consumidor está apertado porque décadas de gasto público inflaram tudo que ele compra, do aluguel ao pão. O setor precisa de estímulo, dizem, quando o que o setor precisa mesmo é de menos imposto, menos regulação trabalhista, menos ESG compulsório, menos formulário. A prova está na demonstração de resultado dessa varejista de sofá: dado espaço para respirar, o capitalismo entrega. Sufocado com "ajuda", morre. Toda vez que um burocrata anuncia pacote de socorro ao varejo, saiba que o pacote é pago pelo consumidor que ele diz estar salvando, com juros.
No fim, é isso: o lucro da DFS não é sorte, é sentença. Sentença contra a tese, repetida como catecismo em Bruxelas, Londres e Brasília, de que sem Estado paternal não há economia possível. Há sim. Sempre houve. Vende sofá, paga dívida, e não deve favor a ninguém. O mercado não precisa de amor do governo, precisa que ele saia do caminho.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.