A Digital 9 Infrastructure, veículo listado em Londres que prometeu ser a pá de cal do futuro da conectividade global, acaba de anunciar a Johnston Carmichael como sua nova auditora. Traduzindo do burocratês: um fundo em processo de liquidação, que já queimou uma fortuna dos investidores desde 2021, agora precisa de olhos frescos para carimbar os últimos balanços antes de fechar a porta. E o mercado recebe a nota como se fosse fato relevante, quando o único fato relevante aqui é que ninguém no conselho anterior queria mais assinar embaixo daquilo que sobrou.
Vale lembrar como esse tipo de bicho nasce. Pega-se um tema da moda, no caso "infraestrutura digital", empacota-se em fundo fechado com yield gordo prometido, distribui-se para fundos de pensão sedentos de retorno num mundo de juro zero fabricado pelos bancos centrais, e pronto: capta-se um bilhão de libras num piscar de olhos. O dinheiro barato, artificial, criado do nada pela impressora monetária, precisava ir para algum lugar. Foi para cabos submarinos, torres, data centers, tudo comprado no topo do ciclo. Quando o juro voltou a existir, o valuation desmoronou. Não foi azar, foi o roteiro previsível de todo ciclo de crédito artificial.
Segue o dinheiro e a história fica clara. Os gestores levaram taxa de administração polpuda enquanto o fundo subia na euforia. Os bancos que estruturaram a coisa ficaram com o fee da colocação. Os consultores que recomendaram para os fundos de pensão britânicos ficaram com o retainer. Os auditores anteriores ficaram com honorários anuais robustos. E os cotistas, aqueles que confiaram no prospecto brilhante e nas projeções em PowerPoint, ficaram com o mico. Agora chamam mais um auditor para conferir os cacos, e cada folha carimbada custa mais um pedaço do que restou aos investidores.
Aqui está a parte que o noticiário financeiro nunca vai contar com todas as letras. Este não é um caso isolado de má gestão. É sintoma de uma década inteira em que a política monetária empurrou capital para riscos que jamais teriam sido tomados numa economia com preços honestos. Cada trilhão impresso pelos bancos centrais depois de 2008, e a repetição da dose durante a pandemia, distorceu completamente a percepção de risco. Fundos como este proliferaram porque a alternativa era ver o dinheiro apodrecer no banco. O verdadeiro criminoso não está no conselho da Digital 9, está nos comitês de política monetária que fingem controlar a economia como se manejassem um termostato.
E note o teatro institucional que se monta no final. Trocam-se auditores, contratam-se advogados especializados em liquidação, publicam-se relatórios com nome pomposo, tudo pago com o que sobrou do patrimônio dos cotistas. É a mesma coreografia de sempre, e ninguém entre os responsáveis pela farra original vai devolver um único centavo do bônus recebido nos anos gordos. Prejuízo se socializa entre os cotistas, lucro se privatiza entre os operadores da máquina. Chame como quiser, o nome técnico é pilhagem legalizada com terno de Savile Row.
Fica a lição que ninguém quer aprender: quando um governo, através do seu banco central, decide que o juro será artificialmente baixo por uma década inteira, ele não está estimulando a economia, está fabricando a próxima catástrofe patrimonial. A Digital 9 é apenas mais uma lápide num cemitério que ainda vai receber muitas visitas. E o próximo fundo com nome futurista e prospecto reluzente já está sendo estruturado agora, esperando o próximo ciclo de dinheiro fácil para repetir a mesma tragédia com atores diferentes.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.