A Digital Currency X Tecnologia acaba de capturar cinco milhões de dólares numa oferta direta, e a manchete no Investing.com vem embrulhada naquele papel de presente que o mercado adora: siglas em inglês, cheiro de futuro, promessa de disrupção. Quer dizer, alguém precisa perguntar o óbvio antes que a euforia contamine o resto: cinco milhões para quê, exatamente? Uma oferta direta, sem intermediação bancária tradicional, sem o rigor de um IPO convencional, é o atalho preferido de quem tem pressa de dinheiro alheio e nenhuma pressa de prestar contas. O nome já entrega meio jogo, aliás, porque juntar "digital currency" com "tecnologia" no mesmo CNPJ é o equivalente contemporâneo de fundar em 1999 uma empresa chamada "Internet Solutions Ponto Com". O rótulo faz o trabalho que o balanço patrimonial não faria.
Olha, o negócio da moeda digital corporativa tem uma lógica muito específica, e ela não é a lógica que os prospectos vendem. Quando um empreendedor de verdade precisa de capital, ele mostra fluxo de caixa, contrato assinado, receita recorrente, alguma coisa palpável que o investidor consiga morder. Quando o empreendedor de conveniência precisa de capital, ele mostra whitepaper, roadmap com setinhas coloridas e uma tese sobre como o futuro pertence a ele. A diferença entre os dois é a diferença entre vender pão e vender o cheiro do pão, e o mercado tem uma tolerância impressionante para pagar caro pelo cheiro desde que ele venha aromatizado com blockchain, tokenização e afins.
Me diz uma coisa: por que tanta empresa que se diz revolucionária precisa recorrer a oferta direta, essa modalidade que existe justamente para driblar o escrutínio da regulação de mercado aberto? A resposta honesta é que o filtro do mercado aberto, com todos os seus defeitos e sua burocracia insuportável, ainda serve para separar o joio do trigo em algum grau. A oferta direta permite que se venda para um grupo seleto de investidores que ou têm apetite de risco de casino, ou têm informação privilegiada, ou, mais comum do que se admite, têm interesse cruzado na operação. Segue o dinheiro e você quase sempre encontra a mesma fauna: fundos de venture com necessidade de mostrar performance no relatório trimestral, family offices caçando o próximo unicórnio pra contar na próxima festa, e uma pontinha de dinheiro que nem sempre se sabe muito bem de onde veio.
O que a manchete não mostra é o que essa captação significa para os que não estão na mesa. Cada dólar que entra numa empresa de "moeda digital" com plano de negócios vaporoso é um dólar que deixou de financiar uma indústria com máquina, com galpão, com trabalhador contratado. A alocação de capital é um jogo de soma quase zero no curto prazo, e quando o dinheiro se acumula em promessas tecnológicas de retorno assintótico, a economia real vai sendo lentamente descapitalizada. É o mesmo fenômeno que fez a bolha das ponto-com engolir poupança de aposentado americano em 2000 e que fez o boom cripto de 2021 vaporizar a economia de milhares de brasileiros que sacaram FGTS para comprar token com nome de cachorro. A história não se repete literalmente, mas ela rima com precisão constrangedora.
E tem a camada regulatória, que ninguém quer discutir na hora do champanhe. Uma oferta direta bem-sucedida hoje é o precedente que a próxima operação vai usar amanhã, e a próxima, e a próxima, até que a autoridade monetária acorde para o fato de que criou-se um mercado paralelo de captação sem os controles mínimos que existem justamente porque, historicamente, sem eles o pequeno investidor vira churrasco. A resposta previsível será regulação pesada, tardia e mal desenhada, do tipo que castiga o empreendedor honesto que veio depois enquanto os primeiros já embarcaram no jatinho. O ciclo é tão previsível que dá tédio.
Cinco milhões de dólares é pouco dinheiro para mover o mundo e é muito dinheiro para desaparecer sem barulho. Fique de olho no que essa Digital Currency X vai efetivamente entregar nos próximos dezoito meses, porque nesse tipo de operação o intervalo entre a euforia da captação e o silêncio constrangedor da liquidação costuma ser exatamente esse. Enquanto isso, o mercado bate palma, a imprensa especializada aplaude, e o contribuinte que vai socorrer o sistema quando a fatura chegar segue trabalhando sem fazer ideia de que já assinou embaixo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.