Um diretor da Blackstone, a maior gestora de ativos alternativos do planeta, acaba de se desfazer de US$ 12,38 milhões em ações da própria companhia. O anúncio saiu com aquela discrição contábil de sempre, um formulário obrigatório na SEC, letra miúda, linguagem asséptica, como quem comunica a troca de um lustre no escritório. Só que não é troca de lustre. É um dos capitães do navio esvaziando o próprio bote salva-vidas enquanto a orquestra ainda toca no convés.
Vamos ao óbvio que ninguém quer enxergar. Executivos vendem ações por dezenas de motivos legítimos, isso é verdade, planejamento sucessório, diversificação, compra de imóvel, divórcio, o que for. Mas o padrão importa mais que a desculpa individual. Quando os insiders de uma casa que administra mais de um trilhão de dólares em ativos começam a converter papel em dinheiro vivo, num momento em que o mercado americano navega em múltiplos historicamente esticados e o Federal Reserve ainda dança conforme a inflação toca, o sinal é inequívoco. Quem viu de perto o balancete, quem senta na mesa onde as decisões são tomadas, está decidindo que prefere o conforto do dólar líquido à promessa da valorização futura. E o pequeno investidor, esse continua sendo convencido de que agora é hora de comprar.
Siga o dinheiro, sempre. A Blackstone construiu seu império sobre o modelo de comprar barato, alavancar até o teto e vender caro para o próximo tolo da fila. Fundos de private equity, imóveis comerciais, dívida corporativa, tudo isso floresceu na era do dinheiro grátis, quando o banco central americano manteve juros próximos de zero por mais de uma década e injetou trilhões via afrouxamento quantitativo. Foi um festival de crédito artificial, e os gigantes financeiros dançaram na frente do palco. Agora que o baile acabou, que os juros voltaram a morder e os imóveis comerciais americanos rangem sob a pressão do trabalho remoto, é natural que alguns dançarinos comecem a puxar a cadeira para si.
Aqui mora a lição que ninguém aprende. O ciclo econômico não é fenômeno da natureza, não é maremoto imprevisível, não é raio caído do céu azul. É consequência direta e mecânica da manipulação monetária que os bancos centrais praticam como se fossem sacerdotes de uma religião secreta. Cada bolha inflada por juros artificialmente baixos gera o seu próprio estouro, e nesse intervalo entre a euforia e a ressaca, os insiders vendem, os fundos alavancados quebram, os aposentados descobrem que o portfólio evaporou, e o contribuinte é chamado para o resgate. Já vimos esse filme em 2008, vimos em 2020, veremos de novo, e cada vez com plateia mais numerosa e menos atenta.
O detalhe delicioso é que a Blackstone, como boa parte da indústria de private equity, cresceu apinhada nos gabinetes de Washington e Bruxelas, moldando regulação, capturando incentivos fiscais, comprando fatias inteiras do mercado imobiliário residencial americano com dinheiro subsidiado por juros que o governo mesmo empurrou para o chão. Não é capitalismo, isso, é compadrio financeirizado. E quando o compadrio azeda, os primeiros a saber são justamente os compadres. O pequeno acionista descobre pelo jornal, três meses depois, quando a ação já caiu trinta por cento e o diretor está tomando champanhe em Nantucket.
Fique atento aos gestos, não aos discursos. O executivo que aparece na CNBC dizendo que "vê valor no longo prazo" e no mesmo mês vende doze milhões em ações está lhe contando duas histórias, e só uma delas é verdadeira. Aposte na que envolve o cheque descontado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.