A cena é sempre a mesma e por isso mesmo continua funcionando. Um diretor da Delek US Holdings, refinaria americana que vive do sobe e desce do barril, se desfaz de duzentos e vinte e sete mil dólares em ações da própria empresa e a notícia é embalada no papel de presente do jargão financeiro, aquele idioma inventado para transformar sinal vermelho em cinza claro. O sujeito que assina os balanços, que sabe o que está na próxima reunião de conselho, que enxerga a planilha antes de virar release, decidiu que era melhor ter o dinheiro no bolso do que o papel na carteira. E o comunicado oficial pede que você acredite que foi apenas rebalanceamento de portfólio.

Existe uma verdade simples que os manuais de mercado financeiro tentam esconder sob camadas de fórmulas: informação é o único ativo que realmente importa, e ela está distribuída de forma escandalosamente desigual. O executivo vende porque sabe algo. Pode ser margem de refino apertando, pode ser regulação ambiental prestes a bater na porta, pode ser dívida rolando em condições piores do que a última teleconferência sugeriu. Você, do outro lado da tela, com seu aplicativo de corretora e sua planilha do Yahoo Finance, tem acesso ao que ele quer que você tenha acesso. Isso não é conspiração, é aritmética.

E aqui entra o teatro regulatório que tanto agrada aos que confundem burocracia com proteção. A Comissão de Valores Mobiliários americana exige a divulgação da venda, ótimo, transparência é sempre bem-vinda. Só que a exigência vem depois do fato consumado, quando o preço já absorveu, quando o pequeno investidor já foi mordido. É como aquele guarda de trânsito que só aparece para tirar foto do acidente. O sistema não previne o assimétrico, ele o cataloga. E chama isso de mercado eficiente, com uma cara de paisagem que dava inveja a qualquer ilusionista de circo.

Delek, para quem não acompanha, é aquele tipo de empresa que vive do sanduíche entre dois preços, o do petróleo que compra e o dos derivados que vende. Refino é negócio de margem apertada, cíclico como poucos, sensível a qualquer resfriado geopolítico. Quando o executivo desse tipo de empresa vende volume relevante, não é sinal de otimismo, por mais que o assessor de imprensa jure de pés juntos que é diversificação patrimonial. É o mesmo diretor que, no dia da posse, jurou alinhamento com acionistas, que agora está discretamente cortando a própria exposição ao alinhamento que prometeu.

Aqui vale o exercício que quase ninguém faz: seguir o rastro do dinheiro sem se deixar hipnotizar pelo comunicado. Quem vende, para quem vende, em que janela, sob quais planos programados, com que histórico prévio. Vendas dentro de planos automáticos são uma coisa; vendas discricionárias em momentos específicos são outra completamente diferente. O investidor de varejo, aquele que compra ação achando que está participando do capitalismo, precisa aprender que o jogo dos insiders é jogado com cartas marcadas, e o baralho está na mão deles.

A moral da história não é não invista em ações, essa é a lição preguiçosa que os inimigos do mercado querem que se tire. A moral é que mercado livre pressupõe informação circulando, e quando a informação anda em velocidades diferentes conforme o CEP e o cargo, o que se tem não é livre mercado, é uma pantomima com regulamento. O verdadeiro capitalismo popular exigiria que o pequeno tivesse acesso à mesma qualidade de informação que o grande, e isso não é utopia socialista, é condição básica de simetria. Enquanto isso não existir, cada venda de insider é um bilhete que o mercado te entrega na saída, avisando que o filme já acabou e você continua sentado esperando os créditos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.