Um diretor da Designer Brands, dona da DSW e de outras redes de calçado americanas, se desfez de cento e quarenta e sete mil e seiscentos dólares em ações da própria empresa. O anúncio saiu com a solenidade de quem informa a previsão do tempo, embutido naqueles formulários regulatórios que ninguém lê, escritos numa língua feita justamente para não ser lida. E, no entanto, é ali, naquela linha discreta de um documento chato, que mora a informação que vale mais do que qualquer relatório de analista de banco.
Olha, ninguém vende ações da empresa que dirige porque acredita que ela vai deslanchar amanhã. Ninguém. O sujeito que senta na cadeira executiva enxerga o balanço antes do balanço, sente o cheiro do trimestre antes do trimestre ser divulgado, sabe quando o estoque encalhou, quando o consumidor sumiu, quando o custo do frete engoliu a margem. Quando esse sujeito converte papel em dinheiro vivo, está dizendo em código o que jamais diria em entrevista. E o pequeno investidor, aquele que confia na história bonita do release, segue comprando o que o insider está descartando.
O varejo de calçado americano vive dias de vaca magra. O consumidor, esmagado pela inflação persistente que a mídia econômica insiste em chamar de fenômeno passageiro há três anos, corta primeiro o que não é essencial. Sapato novo espera. E quem imprime dinheiro em Washington para financiar gastança federal continua transferindo poder de compra do bolso do trabalhador para o balanço do Tesouro, corroendo silenciosamente o varejo discricionário. O executivo que vende suas ações não está sendo pessimista, está sendo realista com o próprio patrimônio, coisa que o cidadão comum não tem o luxo de fazer porque não enxerga o que ele enxerga.
Repare no arranjo. A empresa remunera o executivo com pacotes de ações, chamados de alinhamento de interesses, uma expressão bonita inventada por consultor de governança para justificar bônus milionário. Quando o preço sobe, o executivo embolsa. Quando o preço vai cair, ele já vendeu. Alinhamento de interesses coisa nenhuma, isso é privilégio de informação disfarçado de meritocracia corporativa. O funcionário da loja, que também recebe uma fatia simbólica em plano de participação, descobre a má notícia junto com o resto do mundo, quando o papel já despencou.
E aqui entra a parte que ninguém quer discutir, porque envolve admitir que o rei está nu. As regras que obrigam a divulgação dessas vendas foram criadas justamente para dar chance ao pequeno investidor de reagir. Só que a divulgação é feita da forma mais opaca possível, num prazo que dá tempo suficiente para quem sabe ler, executar a mesma operação antes que o mercado precifique. É a captura regulatória em estado puro, uma norma escrita com a mão direita para proteger o consumidor enquanto a mão esquerda garante que a proteção não funcione de verdade. Regulação existe, mas serve a quem já está dentro do jogo.
Fica a lição, se alguém quiser aprender. O preço não mente, mas quem lê o preço primeiro leva a melhor. E o cidadão que acredita que o mercado de ações é uma democracia de oportunidades iguais precisa entender que existe uma fila, e ele está no fim dela. Enquanto Washington segurar a torneira monetária aberta e as agências reguladoras continuarem produzindo formulários ilegíveis em nome da transparência, quem manda dentro da empresa vai vender antes, e quem está fora vai comprar depois. Sempre foi assim, e por enquanto, ninguém pretende mudar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.