Um diretor da Mercury Systems, empresa de defesa e tecnologia listada nos Estados Unidos, acaba de embolsar oitenta e seis mil e quinhentos e vinte dólares vendendo ações da própria companhia. O número parece pequeno diante dos bilhões que giram diariamente em Wall Street, mas é justamente a modéstia da cifra que o torna interessante. Ninguém vende oitenta e seis mil dólares por acaso; vende porque calculou, porque avaliou o momento, porque tem informação que o resto do mercado ainda não digeriu. E aqui está a assimetria que nenhum regulador jamais conseguiu resolver de verdade, por mais formulário de compliance que empilhe.
O ritual é sempre o mesmo. O executivo comunica ao órgão regulador, publica-se um filing na SEC, e a coisa passa quase despercebida no meio do noticiário de dividendos e recompras. Enquanto isso, o investidor comum, aquele que compra fundo de índice porque acredita na história bonita da democratização do capital, continua alocando religiosamente todo mês, convencido de que está participando do mesmo jogo que os insiders. Só que não está. O jogo dele começa depois que o placar já mudou.
Vale seguir a trilha. A Mercury Systems vive de contratos com o Pentágono, com o complexo industrial militar americano, aquela engrenagem que Eisenhower avisou em discurso de despedida que sairia do controle e que, sessenta e cinco anos depois, saiu mesmo. Empresa que depende de orçamento federal é empresa que depende de política, e política é a coisa mais volátil que existe. Quem está dentro sabe quando o próximo contrato vem, quando o próximo corte vem, quando a próxima auditoria vai apertar. O gráfico de preço é só o eco tardio dessas conversas de corredor.
E o mais grotesco de tudo é a naturalização do arranjo. Chamam de insider trading legal, como se existisse imoralidade legalizada que deixasse de ser imoralidade só porque um advogado carimbou. O sujeito senta na mesa onde se decide o futuro da empresa e ainda tem o direito de negociar as ações com base nesse conhecimento, desde que preencha o papel certo no prazo certo. É como permitir que o juiz aposte no jogo que ele mesmo apita, contanto que declare a aposta no formulário oficial. Funciona? Funciona. É justo? Pergunte ao torcedor.
O pequeno investidor deveria aprender a ler esses movimentos como leem os agricultores as nuvens antes da tempestade. Não é garantia de nada, porque insider também erra, insider também precisa pagar imposto de renda, insider também compra casa nova. Mas quando o padrão se repete, quando vários diretores começam a se desfazer de posições ao mesmo tempo, o recado está dado em letras garrafais. O problema é que o mercado moderno treinou o pequeno a olhar para o gráfico e ignorar a fila de saída dos executivos.
No fim das contas, cada venda dessas é uma pequena confissão silenciosa de que o preço atual talvez esteja mais generoso do que o valor real justifica. Repetida mil vezes por mil executivos, forma um coro que só os surdos voluntários deixam de escutar. E o mercado, generosamente, oferece surdez em regime de assinatura mensal.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.