Alexander Moore, diretor da Palantir Technologies, acaba de se desfazer de US$ 2,76 milhões em ações da própria empresa. Não é crime, não é escândalo jurídico, é apenas aquele gesto silencioso que os manuais de finanças ensinam a interpretar com lupa: quando quem constrói a casa começa a vender os móveis, convém perguntar se o telhado não está com goteira. A Palantir virou queridinha da bolsa nos últimos ciclos porque casou dois hypes irresistíveis, inteligência artificial e contratos militares, e o mercado, viciado em narrativa, comprou tudo com juros.

Acontece que executivos não vendem posição significativa por acaso. Eles vendem quando o preço já refletiu, e com folga, tudo aquilo que o próprio insider consegue enxergar do lado de dentro. É a assimetria de informação em estado puro, aquela mesma que o pequeno investidor jura que não existe porque acredita nos comunicados oficiais e nas entrevistas cheias de sorriso corporativo. Enquanto o varejo compra pela promessa, o diretor realiza pela certeza.

Vale olhar o que não se vê nesta operação. A Palantir cresceu grudada no orçamento do Pentágono, no aparato de vigilância estatal e em contratos de agências que ninguém audita direito. Cada dólar que engorda essa companhia saiu do bolso do contribuinte americano, canalizado por um Estado que descobriu que terceirizar espionagem é politicamente mais barato do que fazer internamente. O acionista celebra o lucro sem perceber que está aplaudindo uma máquina de sugar impostos travestida de startup de tecnologia.

A história econômica está cheia de empresas que pareciam invencíveis enquanto os fundadores e diretores despachavam ações na calada. As pontocom no final dos anos noventa faziam exatamente isso, os bancos em 2007 também, as fintechs em 2021 idem. O padrão se repete porque a natureza humana não muda: quem tem acesso ao balancete real vende para quem tem acesso apenas ao release de imprensa. E o release de imprensa sempre diz que o futuro é radiante.

Há ainda a questão moral que ninguém quer discutir. A Palantir não vende sabonete ou software de planilha, vende capacidade de rastrear, prever e vigiar seres humanos em escala industrial. Cada valorização da ação é uma aposta coletiva de que o Estado vai continuar expandindo seu apetite por controle, e essa aposta tem se mostrado historicamente vencedora porque governo nenhum jamais devolveu poder voluntariamente. O investidor lucra com a servidão alheia e chama isso de retorno sobre capital.

Fique com a imagem: o diretor sai pela porta dos fundos com quase três milhões no bolso, enquanto o pequeno investidor entra pela porta da frente segurando o gráfico ascendente. Um dos dois sabe o que está fazendo, e não é quem paga a corretagem para comprar no topo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.