Um diretor da Tenet Healthcare, gigante hospitalar americana, despejou US$ 3,17 milhões em ações da própria companhia. Não foi um lote simbólico, não foi exercício rotineiro de opções perdidas no meio da papelada trimestral, foi venda deliberada, registrada, comunicada à SEC porque a lei obriga, e recebida pelo mercado com aquele silêncio embaraçado de quem entende o recado mas prefere não comentar. O sujeito que senta na mesa onde as decisões são tomadas, que lê os relatórios antes de virarem release, que sabe qual contrato hospitalar está pendurado por um fio e qual seguradora está atrasando repasse, esse sujeito olhou para a tela, apertou vender e transferiu risco para o próximo otário da fila.

Existe uma assimetria de informação que nenhuma regulação de compliance jamais vai resolver, e ela é a coluna vertebral do jogo. O executivo dentro sabe. O acionista fora acredita. Entre saber e acreditar existe uma distância de milhões de dólares que se materializa exatamente nesse tipo de operação. A defesa oficial é sempre a mesma ladainha: diversificação de patrimônio, planejamento sucessório, exercício de plano pré-programado, aquele arsenal de eufemismos que serviria também para explicar por que o capitão desceu do navio dez minutos antes do iceberg. Quer dizer, se é tão rotineiro, por que não vender depois do próximo balanço? Por que agora?

O setor de saúde americano é uma fábrica de subsídio disfarçado de mercado. Medicare, Medicaid, Affordable Care Act, deduções fiscais, reembolsos federais, tudo isso cria uma economia paralela onde o preço da diária hospitalar não obedece a oferta e demanda, obedece à planilha do burocrata em Washington. A Tenet, como qualquer conglomerado hospitalar, vive dessa mamata institucionalizada, e quem está por dentro sabe quando o vento político vira, quando uma comissão do Congresso começa a farejar preço abusivo, quando um estado decide renegociar tabela. O executivo não precisa de bola de cristal, precisa apenas de acesso ao mesmo material que o pequeno investidor não vê.

Olha, a história do capitalismo de compadrio tem uma regra silenciosa que ninguém escreve mas todos praticam: o dinheiro público entra pela porta da frente vestido de política de saúde, é redistribuído em contratos, subsídios e reembolsos, engorda o balanço de conglomerados listados em bolsa, e sai pela porta dos fundos na forma de bônus executivo e venda de ações no topo. O cidadão pagou imposto para financiar hospital, o hospital cobrou seguro, o seguro repassou para o empregador, o empregador desconta do salário, e no fim da linha o diretor liquida três milhões porque a onda passou. Ninguém quebrou lei nenhuma. Esse é justamente o problema.

Me diz uma coisa, quando foi que decidiram que insider vendendo é neutro e insider comprando é otimismo? Comprar é aposta pessoal com risco individual, vender é transferência de risco para desconhecidos. E ainda tem analista escrevendo relatório de recomendação sem sequer mencionar o que os próprios diretores estão fazendo com suas ações. O pequeno investidor recebe newsletter de guru, planilha de múltiplo, projeção de fluxo de caixa descontado, e a informação que realmente importa, a que está gravada em formulário público da SEC, ninguém traduz para ele. A cerca não caiu por acaso, foi montada assim.

Três milhões e cento e setenta mil dólares mudaram de bolso, e a lição continua a mesma de sempre: quem senta na cadeira sabe primeiro, sai primeiro e conta a história depois. O resto segura o gráfico.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.