Cinco mil, quatrocentos e noventa e sete dólares. Esse é o valor exato que um diretor da Venu Holding gastou comprando ações da empresa que ele mesmo ajuda a comandar. Para ter noção da grandeza do gesto, é menos do que um executivo de médio escalão gasta em uma viagem de negócios a Nova York, menos do que custa um relógio suíço de entrada, menos do que muitos americanos gastam em um final de semana em Las Vegas. E ainda assim, isso virou manchete de portal financeiro, como se o sujeito tivesse apostado a casa na própria empresa.
Existe um ritual muito bem ensaiado no capitalismo financeirizado moderno, e ele funciona mais ou menos assim. Quando as ações caem, quando o balanço decepciona, quando o mercado começa a farejar problema, algum executivo aparece comprando um punhado simbólico de papéis para sinalizar confiança. É o equivalente corporativo daquele político que aparece na feira comprando tomate para mostrar que é gente como a gente. Ninguém acredita, todo mundo entende o teatro, mas o ritual segue.
O problema é que quem investe de verdade, quem coloca economia real na mesa, deveria conhecer a diferença entre um sinal caro e um sinal barato. Um diretor que compra cinco mil dólares em ações não está apostando nada. Está fazendo um gesto de relações públicas que custa menos do que a assessoria de imprensa que vai divulgar o gesto. Se ele acreditasse mesmo na empresa, a compra seria de seis dígitos, sete dígitos, algo que doesse no bolso dele. O gesto pequeno denuncia justamente aquilo que pretende esconder: a falta de convicção real.
Siga o dinheiro sempre, é a regra que nunca falha. Onde estão as compras robustas dos insiders da Venu? Onde está o CEO botando um milhão do próprio patrimônio? Onde estão os fundadores comprando de volta os papéis que emitiram? Quando a alta cúpula compra apenas o mínimo cerimonial, enquanto ao mesmo tempo recebe pacotes de remuneração em ações que serão diluídos e vendidos no primeiro pico, o recado está dado. O que eles ganham vendendo é sempre múltiplo do que eles arriscam comprando.
Essa é a farsa recorrente do mercado de capitais americano das últimas duas décadas. Empresas queimando caixa, gerando prejuízo trimestre após trimestre, sustentadas por narrativa e por injeção de crédito barato que vinha do banco central. Executivos enriquecendo via stock options enquanto o acionista comum segura o mico. Analistas de portal financeiro celebrando compras simbólicas como se fossem votos de confiança, quando são apenas peças de encenação. Enquanto o dinheiro impresso corria solto, o esquema funcionava. Agora que a farra monetária virou ressaca, cada gesto pequeno é embalado como grande notícia justamente porque as boas notícias sumiram.
Quer confiar em uma empresa? Não olhe para o gesto simbólico do diretor. Olhe para o fluxo de caixa livre, para a dívida, para a diluição, para quanto os controladores estão sacando via remuneração versus quanto estão realmente arriscando. O resto é fumaça, e cinco mil e quinhentos dólares é fumaça muito rala para esconder qualquer incêndio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.