Uma diretora da CME Group, o coração pulsante do mercado global de derivativos, se desfez de US$ 140.055 em ações da própria companhia, e a notícia chega ao investidor brasileiro embrulhada naquele papel de presente institucional que finge ser transparência quando na verdade é ritual burocrático. A informação está lá, no formulário obrigatório da SEC, cumprindo o teatro regulatório que serve principalmente para dar a impressão de que alguém está vigiando alguma coisa. Mas quem executa a ordem de venda tem acesso, por definição, a informações que o cidadão que compra ação por aplicativo jamais verá.

Convém lembrar o que é a CME Group para quem não vive respirando pregão. É a bolsa que precifica desde o boi gordo que vira picanha até o petróleo que abastece o carro, passando por juros, moedas, índices acionários e, mais recentemente, contratos futuros de bitcoin. Toda a arquitetura de hedge do capitalismo global passa por lá, e cada centavo de comissão cobrada em cada contrato negociado engorda o balanço da companhia. Quem senta na diretoria dessa máquina sabe, antes de qualquer analista de banco, se o volume está subindo ou desabando, se novos produtos vão emplacar, se a regulação vai apertar. Sabe, e vende.

A venda pode ser perfeitamente legal, e provavelmente é. Foi executada, muito provavelmente, dentro de um plano 10b5-1, aquele mecanismo criado justamente para que executivos possam se desfazer de ações sem serem acusados de negociar com informação privilegiada. O detalhe que ninguém comenta é que o próprio executivo desenha o plano, escolhe quando ele começa a valer e conhece perfeitamente o cronograma de resultados corporativos. É como jogar pôquer marcando as cartas na frente do dealer e ainda emitir um certificado de honestidade assinado por si mesmo. A regulação existe, sim, mas foi construída pelos regulados, para os regulados, com a bênção dos regulados.

Enquanto isso, o pequeno investidor que ousa vender uma ação da Petrobras dias antes de um balanço ruim aparece na tela da CVM antes de terminar de tomar o café. A pilhagem legalizada opera por assimetria, e a assimetria é o produto. Quando o insider vende, chama-se rebalanceamento de portfólio, planejamento sucessório, exercício de opções vencidas, qualquer eufemismo que caiba no comunicado. Quando o cidadão comum vende, chama-se suspeita. A diferença entre o crime e o compliance mora no CEP do escritório.

Sigamos o dinheiro, que é o único mapa confiável. US$ 140 mil não quebram ninguém e não fazem o preço da ação oscilar, e é justamente aí que reside a genialidade do arranjo. Vendas pequenas, escalonadas, dentro de planos pré-aprovados, executadas por dezenas de executivos ao longo do ano, somam centenas de milhões que saem silenciosamente do bolso dos acionistas de longo prazo, aqueles fundos de pensão que compram na alta e seguram na baixa porque o prospecto manda. O executivo realiza o lucro, o aposentado americano segura o mico, e o economista de televisão continua explicando que o mercado é eficiente.

A moral da história não está na venda em si, mas na paisagem que a permite. Vivemos sob um sistema que criou a ilusão de mercados transparentes construindo camadas e mais camadas de regulação que, na prática, blindaram os iniciados e criminalizaram os leigos. A cada nova regra, mais advogados são contratados pelos grandes, mais formulários são preenchidos pelos pequenos, e menos gente entende o que efetivamente está acontecendo. O mercado livre teria linchado esse tipo de arranjo em dois dias. O mercado regulado o transforma em rotina trimestral.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.