Damian Gaveau, diretora não executiva da Coca-Cola Europacific Partners, renunciou ao cargo, e o comunicado oficial veio embrulhado naquela prosa asséptica que empresas de capital aberto aprenderam a produzir em série. Agradecimentos protocolares, elogios genéricos, promessa de continuidade. O papel muda de mão, o organograma respira fundo, e o mercado, com aquela sabedoria que só a indiferença produz, bocejou. A ação nem se mexeu. E isto, veja bem, é o dado mais eloquente da história toda.

Porque quando a saída de um membro de conselho de uma multinacional gigantesca não move um centavo do preço da ação, o que se está dizendo, sem dizer, é que aquela posição, tal como muitas outras, é ornamental. Existe para cumprir exigências regulatórias, quotas de diversidade, checklists de governança, relatórios de sustentabilidade e todo o arsenal burocrático que a União Europeia despeja sobre companhias listadas. Não existe para gerar valor ao acionista, muito menos ao consumidor. Existe para justificar a existência de si mesma, num movimento circular que seria cômico se não fosse pago em euros retirados do preço de cada lata vendida.

Vale seguir o dinheiro, sempre. A Coca-Cola Europacific Partners opera em mercados onde o refrigerante já é taxado como pecado, sobretaxado como açúcar, sobretaxado ainda como plástico, e agora obrigado a financiar conselhos, comitês, subcomitês, auditorias ESG e consultorias que revisam consultorias. Cada camada dessa cebola custa. Cada custo é embutido no preço. Cada preço é pago pelo trabalhador que quer uma bebida gelada no fim do expediente. O trabalhador não vê o conselho. O trabalhador vê a lata mais cara. E lhe dizem que isto é governança responsável.

A questão de fundo, que ninguém quer tocar porque desmontaria o negócio inteiro dessa indústria paralela de compliance, é simples. Uma empresa privada, em regime de livre concorrência genuína, teria conselhos enxutos, decisões rápidas e responsabilidade pessoal de quem senta na cadeira. O que se tem hoje é o oposto: conselhos inchados, decisões diluídas em comitês, e responsabilidade que evapora no momento em que a renúncia é assinada com sorrisos e comunicados de agradecimento. Ninguém errou, ninguém acertou, ninguém explicou nada, e a próxima cadeira já tem candidato de perfil demográfico adequado esperando na fila.

Há algo profundamente revelador quando uma sociedade trata como notícia econômica o que é, essencialmente, uma remoção de mobília. É sintoma de uma economia que perdeu o senso do que é produtivo e do que é decorativo. A cerca foi construída um dia para proteger o acionista minoritário do abuso de controladores. Hoje a cerca virou labirinto, o labirinto virou indústria, e a indústria vive de vender mapas do labirinto para quem paga o refrigerante. Quem tenta simplificar é acusado de irresponsabilidade. Quem complica ganha assento, honorário e reverência da imprensa especializada.

A moral desta pequena vinheta corporativa é que nenhum sistema envelhece pior do que aquele que confunde processo com resultado. A cadeira ficou vazia por algumas horas e o mundo não parou. Talvez porque nunca precisou estar cheia daquele jeito. Cadeira vazia às vezes vale mais do que ocupante caro, e quem pagou o refrigerante já sabia disso antes do comunicado sair.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.