O Reform UK, legenda que vem devorando o eleitorado tradicional dos trabalhistas e conservadores em pesquisa após pesquisa, receberá o presente de grego mais previsível da política moderna: uma revisão nas regras de financiamento eleitoral, anunciada exatamente no momento em que seus cofres começam a transbordar. A coincidência é tão delicada que só um ingênuo acreditaria nela. Quando um partido de fora do sistema começa a ganhar músculo financeiro, o sistema descobre, de repente, uma preocupação inadiável com "integridade democrática". Antes disso, os mesmos limites frouxos que hoje incomodam serviam perfeitamente aos partidos estabelecidos, que sempre souberam captar rios de dinheiro sem que ninguém convocasse comissão nenhuma.
A retórica oficial fala em transparência, proteção contra influência estrangeira, defesa da lisura do processo. A tradução honesta seria outra: proteção contra a concorrência. Regras eleitorais escritas por quem está no poder para atingir quem está subindo nas pesquisas não são reforma democrática, são engenharia de perpetuação. E o mais impressionante é a cara de paisagem com que se apresenta o expediente, como se fosse aperfeiçoamento técnico neutro, quando qualquer criança de dez anos entende que mudar o comprimento do campo no meio do segundo tempo beneficia sempre o time que está perdendo.
Vale seguir o dinheiro no sentido inverso também. Quem financia os partidos que hoje pedem a revisão? Sindicatos, fundações, empresas com contratos públicos, doadores institucionais que operam há décadas com os mesmos canais bem lubrificados. Esses financiamentos, curiosamente, jamais entraram na pauta da "urgência democrática". O problema só virou problema quando o dinheiro começou a fluir para o lado errado do balcão. É a velha regra não escrita: quando o establishment recebe milhões, chama-se apoio cívico; quando o insurgente recebe milhões, chama-se ameaça à democracia.
Existe algo ainda mais grave por baixo disso, que é a inversão do que uma eleição deveria ser. A doação privada a um partido é, no fim das contas, a manifestação econômica de uma preferência política. Quando o cidadão tira do próprio bolso para bancar quem defende suas ideias, ele exerce liberdade dupla, a de opinião e a de propriedade. Restringir esse ato em nome de "equalizar" o jogo é dar ao Estado a caneta para decidir quais vozes podem ser amplificadas e quais devem morrer na largada. Isso não é democracia madura, é tutela travestida.
O padrão se repete em todo o Ocidente com a monotonia de um relógio quebrado. Toda vez que uma alternativa antissistema ameaça furar o cordão de isolamento sanitário, aparecem comissões, revisões, comitês de ética, projetos de lei sobre desinformação, regulação de plataformas, limites de doação, cotas de tempo de mídia. Nunca contra os de sempre, sempre contra os novos. É o instinto de conservação da casta política, que descobriu, depois de séculos, que não precisa mais mandar os adversários para a Torre de Londres; basta sufocá-los com formulários, auditorias e prazos processuais até que a próxima eleição chegue e eles ainda estejam preenchendo papel.
No fundo, a lição é antiga e desconfortável. Quando quem detém o poder passa a definir as regras de quem pode disputar o poder, a eleição vira encenação e o voto vira ritual. O eleitor ainda vai à urna, ainda acredita que decide, mas a decisão de verdade foi tomada meses antes, dentro de gabinetes onde ninguém foi eleito para nada. Se um partido só consegue vencer mudando as regras contra o adversário, ele já perdeu a única eleição que importava, a da legitimidade moral para governar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.