O Bank of America publicou o veredicto e o rebanho analista repetiu em coro: dólar de lado até dezembro. A frase é curta, o suficiente para caber num tweet, e vaga o bastante para não comprometer ninguém quando der errado. É assim que funciona a indústria de projeções cambiais no Brasil, um cassino onde a casa nunca perde porque a casa é quem escreve as regras do jogo depois da rodada.

Olha, quando um banco desse porte decreta estabilidade cambial, não está descrevendo a realidade, está tentando construí-la. Relatório de banco grande não é fotografia, é pincel. E o pincel pinta o quadro que interessa às posições que a mesa proprietária já montou na semana anterior. Você acha mesmo que a análise saiu antes das apostas? Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um call de banco contrariou o livro do próprio banco?

O que se vê é o dólar parado. O que não se vê é o Tesouro brasileiro rolando dívida a juros nominais que fariam corar um agiota do interior, o Banco Central queimando reservas em leilões que ninguém audita direito, o carry trade sugando rendimento real de uma economia que produz cada vez menos e endivida cada vez mais. Câmbio estável no Brasil de 2026 é como termômetro quebrado num paciente com febre, marca vinte e três graus enquanto o sujeito arde por dentro.

A verdadeira pergunta ninguém faz nos jornais econômicos, aqueles que vivem de anunciante bancário e por isso escrevem com cuidado de manicure. Quem lucra com dólar de lado? O exportador que trava hedge nessa faixa. O importador que refinancia estoque com margem calculada. O fundo que vendeu volatilidade e reza para não ser exercido. E principalmente o governo, que precisa da miragem de estabilidade para vender a narrativa de que a irresponsabilidade fiscal não tem custo. Tem. Sempre tem. E a conta vem, atrasada, com juros.

A história cambial brasileira é um catálogo de estabilidades enganosas seguidas de correções brutais. Cada ciclo tem seu profeta de banco grande garantindo que dessa vez é diferente, que os fundamentos estão sólidos, que o cenário externo colabora. Depois vem o susto, e os mesmos analistas escrevem novo relatório explicando por que era óbvio que aconteceria. A memória do mercado brasileiro dura o tempo de um trimestre fiscal, coincidentemente o mesmo tempo que um bônus leva para ser pago.

Enquanto o país celebra a suposta calmaria, a base monetária infla, a dívida pública engorda, o gasto obrigatório devora a receita, e ninguém tem coragem de dizer o óbvio, que moeda parada em economia doente é sintoma de manipulação, não de saúde. O dólar não anda de lado por virtude, anda de lado enquanto os interessados conseguem segurar. Quando não conseguirem mais, vai andar. E vai andar rápido, na direção que sempre andou quando o país insiste em fingir que gastar sem produzir é modelo de desenvolvimento.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.