O dólar operou em baixa nesta sessão e os comentaristas de sempre correram para atribuir o movimento ao "ambiente externo favorável", àquela sopa de letrinhas que serve para tudo e não explica nada. A verdade é bem mais prosaica e bem mais constrangedora: a moeda americana só recua no Brasil quando o mercado aposta que a próxima eleição vai domar minimamente a gastança, e sobe quando desconfia que a farra continua. Traduzindo para o português dos mortais, o câmbio hoje não reflete produtividade, poupança ou competitividade, reflete a probabilidade de o próximo ocupante do Planalto respeitar aritmética básica.
Note o teatro. O mesmo analista que ontem jurava que o real se fortalecia por causa do "diferencial de juros" hoje jura que se fortalece por causa da "disputa eleitoral no foco". Amanhã, se a moeda subir, será culpa do Fed, da China, do clima em Chicago, de qualquer coisa menos do fato incontornável de que um país que gasta mais do que arrecada há décadas paga o pedágio na taxa de câmbio. Toda vez que o Tesouro rola dívida com juro de dois dígitos para bancar programa eleitoral, alguém está pagando a conta, e esse alguém geralmente é o sujeito que abastece o carro na esquina e vê o preço do combustível fazer ginástica.
Siga o dinheiro e a névoa se dissipa. Quem ganha com dólar volátil? O operador de mesa, o consultor de hedge, o banco que cobra spread, o político que usa a moeda como bode expiatório para justificar a próxima intervenção. Quem perde? O importador de insumo, o industrial que precisa de máquina lá fora, o consumidor que compra produto com componente dolarizado, ou seja, todo mundo, porque na economia moderna quase nada é puramente nacional. Enquanto isso, o Banco Central segue a coreografia habitual, subindo juro para conter inflação que ele mesmo ajudou a criar quando expandiu balanço em nome da "estabilidade".
Há uma ilusão de ótica particularmente perversa no debate atual. Cada vez que uma pesquisa aponta um candidato menos gastador, o dólar cede alguns centavos e a imprensa festeja como se fosse mérito de política pública. Não é. É apenas o mercado precificando menos veneno na dose futura. Isso não é força do real, é alívio momentâneo de quem estava com a faca no pescoço. Confundir os dois é o tipo de erro que custa décadas, e o Brasil já pagou essa fatura mais vezes do que consegue lembrar, do Cruzado ao Real, do Collor ao teto de gastos furado por dentro enquanto se aplaudia por fora.
A pergunta honesta que ninguém no noticiário quer fazer é a seguinte: se a eleição, e apenas a eleição, é capaz de mover o câmbio dessa maneira, o que isso diz sobre a fragilidade das nossas instituições econômicas? Diz que não temos âncora real, temos âncora política. Diz que a moeda não é reserva de valor, é aposta binária em quem vence a próxima disputa. Diz que trinta anos depois do plano que supostamente nos daria estabilidade, continuamos dependendo do humor do eleitor mediano para não voltar à hiperinflação. Isso não é economia de país sério, é cassino com bandeira nacional.
No fim, o dólar em baixa hoje é boa notícia da mesma forma que um dia sem febre é boa notícia para o doente crônico: alivia, mas não cura. A cura passaria por cortar gasto de verdade, respeitar contrato, parar de imprimir dinheiro para financiar programa eleitoral e devolver ao cidadão a liberdade de guardar seu próprio dinheiro sem que ele derreta na gaveta. Enquanto isso não acontece, cada oscilação da moeda vai continuar sendo lida como oráculo pelos comentaristas de plantão, quando na verdade é só o país gemendo sob o peso do próprio governo. Câmbio não mente; quem mente é quem finge não entender o que ele está dizendo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.