Cinco anos depois de a Telefónica e a Liberty Global celebrarem a fusão da Virgin Media com a O2 como o casamento do século nas telecomunicações britânicas, a joint venture agora sai com o chapéu na mão atrás de £ 600 milhões em cortes de custos. Traduzindo do corporativês para o português: milhares de empregos vão para o lixo, torres serão vendidas, contratos serão renegociados na marra e o consumidor britânico continuará pagando cada vez mais caro por um serviço que a propaganda da fusão prometeu revolucionar. Aquela sinergia mágica de £ 6,2 bilhões que justificou juntar as duas empresas em 2021? Sumiu no ar, como fumaça de escritório recém-desativado.
Toda fusão gigante começa com o mesmo teatro. Executivos em terno impecável, apresentação em PowerPoint com setas apontando para cima, promessa de economia de escala, de eficiência, de valor ao acionista, de investimento em rede de última geração. Passam três, quatro, cinco anos, e o resultado é sempre o mesmo: as sinergias prometidas não se materializam, o serviço piora, a competição diminui, os preços sobem e, quando o balanço aperta, a solução mágica é sempre a mesma. Cortar gente. Nunca cortar bônus de diretoria, nunca revisar a estratégia de aquisição, nunca devolver dinheiro ao consumidor pelas promessas não cumpridas. Cortar quem trabalha na ponta.
O que ninguém quer olhar é a razão pela qual essa fusão pôde acontecer em primeiro lugar. Telecomunicações é um dos setores mais regulados do planeta, um oligopólio artificial sustentado por licenças de espectro que o governo distribui como fosse dono do ar, por barreiras de entrada gigantescas criadas pela própria regulação, e por proteções que impedem que qualquer garagem inovadora ameace o clube fechado das gigantes. Quando o Estado desenha o tabuleiro, os jogadores grandes se fundem, se abraçam e sorriem para as câmeras. O pequeno consumidor, sem opção real, engole o pacote e paga a conta. E quando a conta não fecha, ele engole também o corte, porque metade dos empregos cortados é gente que atendia justamente esse consumidor.
Repare no padrão histórico. Fusões celebradas como sinergia estratégica se tornam, invariavelmente, exercícios de arbitragem contábil. A Time Warner com a AOL, a Daimler com a Chrysler, a HP com a Compaq. Bilhões evaporam, executivos que arquitetaram o desastre saem com bônus milionários, e sempre sobra alguém do chão de fábrica ou do call center para pagar a conta do romance falido. A Virgin Media O2 caminha na mesma trilha, só que embalada em jargão de transformação digital e ESG. Muda o vocabulário, não muda a natureza da coisa.
Há ainda o detalhe do endividamento. Fusões dessa escala são financiadas com montanhas de dívida barata, aquela que o dinheiro fabricado pelos bancos centrais permitiu por uma década inteira. Enquanto o juro era zero, tudo parecia lucrativo, tudo parecia estratégico, tudo parecia sinérgico. Agora que o dinheiro voltou a ter preço, o rei está nu, e a única forma de sustentar o balanço é apertar o pescoço de quem trabalha. A conta da farra monetária dos últimos quinze anos está chegando setor por setor, e cada anúncio de corte bilionário é mais uma parcela sendo paga por quem nunca provou do banquete.
No fim, essa história tem uma moral inconveniente que ninguém no Financial Times vai escrever. Quando o mercado é livre de verdade, empresa ruim quebra, empresa boa cresce, e o consumidor decide. Quando o mercado é uma coreografia entre gigantes protegidos pelo Estado e alimentados por dinheiro artificial, empresa ruim se funde com empresa ruim, o resultado se chama sinergia, e quando não dá certo, mandam embora os funcionários e continuam cobrando a mensalidade do cliente. Chamam isso de capitalismo, mas capitalismo de verdade não precisa de licença estatal para respirar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.