O recado saiu num jornal alemão e foi repetido em coro pelos terminais financeiros como se fosse profecia de oráculo. O economista-chefe do Banco Central Europeu diz que a inflação da zona do euro deve convergir para os dois por cento a partir de meados de 2027. Repare no verbo, no advérbio, no calendário elástico. Não é junho, não é julho, é "a partir de meados". A mesma instituição que jurou em 2021 que a inflação era "transitória", que em 2022 correu atrás do próprio rabo subindo juros no susto, agora projeta com cara de quem entende do assunto uma data que fica convenientemente depois do próximo ciclo político europeu.

Vamos ao que ninguém quer explicar em voz alta. Inflação não é fenômeno meteorológico, não cai do céu, não vem da guerra, não vem do petróleo, não vem do clima. Inflação é o que acontece quando um monopólio estatal da moeda emite mais unidades de conta do que a economia real produz em bens e serviços. O Banco Central Europeu inflou seu balanço de dois trilhões de euros em 2014 para quase nove trilhões em 2022. Comprou dívida soberana de país quebrado, financiou déficit de governo perdulário, subsidiou banco falido, e agora se apresenta como bombeiro do incêndio que ele mesmo ateou com o próprio isqueiro.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Quem ganhou com a impressora ligada foram os governos endividados que rolaram dívida a custo negativo, os bancos que pegaram liquidez de graça, os detentores de ativo financeiro que viram bolsa e imóvel disparar. Quem pagou a conta foi o aposentado alemão que viu sua poupança de quarenta anos evaporar em poder de compra, o assalariado italiano que viu o carrinho de supermercado encolher, o pequeno empresário espanhol que não consegue mais repor estoque com a mesma margem. A conta da farra monetária sempre cai no colo de quem não tem acesso ao balcão do banco central.

E a promessa de meados de 2027 tem gosto de piada de mau gosto. Dezoito meses adicionais de juros altos para conter a inflação que a própria autoridade fabricou é dezoito meses de pequeno comércio quebrando, dezoito meses de família refinanciando hipoteca no sufoco, dezoito meses de indústria adiando investimento. E o pior, quando a meta finalmente for atingida em algum trimestre nebuloso de 2027, o comitê aparecerá em coletiva sorrindo, medalha no peito, dizendo que a política monetária foi bem calibrada. Ninguém vai perguntar por que o poder de compra do euro caiu vinte por cento no meio do caminho e nunca mais voltará.

Existe uma soberba particular no anúncio, aquela pretensão de quem acha que uma dúzia de doutores reunidos num prédio em Frankfurt consegue prever com precisão de calendário o comportamento agregado de trezentos e quarenta milhões de pessoas fazendo bilhões de escolhas por dia. É a mesma soberba que produziu o planejamento central soviético, é a mesma soberba que garantiu que o subprime americano estava sob controle em 2007, é a mesma soberba que jurou que a inflação de 2021 era passageira. O burocrata erra, sobe de cargo, e volta a errar com salário maior.

A verdade indigesta é que não existe convergência suave, não existe pouso macio, não existe cronograma limpo quando se distorce por uma década inteira o sistema de preços de um continente. A conta chega em forma de recessão, em forma de desemprego, em forma de empobrecimento silencioso da classe média que trabalhou a vida inteira acreditando na estabilidade da moeda. E o comitê que causou tudo isso sai do prédio de limusine, com pensão vitalícia indexada, para dar palestra sobre "os desafios da política monetária num mundo complexo". Meados de 2027 é só o nome elegante que se dá para o tempo que falta até o próximo susto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.