Faltam poucos meses para a corrida presidencial francesa de 2027 e o país que se orgulha de exportar filosofia política para o mundo chega ao pleito com dívida pública beirando 115% do PIB, déficit crônico acima dos limites que a própria União Europeia inventou para disciplinar seus membros, e uma agenda de reformas empilhada que ninguém quer assinar porque o custo político é imediato e o benefício, se vier, aparece no mandato do sucessor. O debate público, enquanto isso, gira em torno de quem lidera qual pesquisa, se a direita nacionalista consegue romper o cordão sanitário construído pela imprensa parisiense, se a esquerda vai unida ou fragmentada, se o centrista da vez consegue mais um coelho da cartola. Nada, absolutamente nada, sobre a matemática básica que qualquer dona de casa entende: gastar mais do que se arrecada, ano após ano, termina em bancarrota.
Convém olhar para o que ninguém quer ver. A França construiu, ao longo de meio século, um modelo em que quase metade do PIB passa pelas mãos do Estado, no qual a aposentadoria antecipada virou direito adquirido sagrado, a semana de 35 horas foi consagrada como conquista civilizatória, e cada tentativa de mexer em qualquer bênção estatal produz um exército de coletes de alguma cor bloqueando rotatórias. O resultado é previsível: crescimento anêmico há duas décadas, produtividade estagnada, indústria migrando para onde os impostos deixam alguma coisa sobrar, e uma juventude que ou se torna funcionária pública ou pega o Eurostar rumo a Londres. E ainda assim, os candidatos de 2027 competem para prometer mais gasto, mais programa, mais rede de proteção. Como se a impressora do Banco Central Europeu fosse máquina de perpétuo movimento.
Siga o dinheiro e a fotografia se revela. Os grandes fundos de pensão públicos, os sindicatos incrustados nas estatais, o funcionalismo entrincheirado, o complexo agrícola subsidiado, a indústria cultural que vive de repasse, o gigantesco aparato de ONGs financiadas por editais governamentais: cada um desses grupos tem candidato preferido, tem lobby operando nos corredores, tem colunista amigo martelando na televisão pública paga pelo contribuinte. Quem paga a conta é o sujeito que acorda cedo, pega o metrô, aguenta 45% de imposto sobre o salário, mais IVA de 20% em quase tudo que consome, e volta para casa ouvindo no rádio que precisa fazer mais um sacrifício pela solidariedade nacional. Solidariedade, no dicionário francês contemporâneo, é sinônimo de transferência involuntária dos produtivos para os organizados.
A ascensão do nacionalismo populista, que a mídia global trata como anomalia inexplicável, é apenas a resposta natural de uma população que percebeu, tarde e mal, que foi transformada em minoria fiscal dentro do próprio país. Quando o Estado promete tudo a todos e cumpre para os que gritam mais alto, o eleitor médio vai procurar quem prometa quebrar o arranjo. Não porque ame extremos, mas porque o centro apodreceu. E o centro apodreceu porque passou trinta anos administrando o declínio com sorriso corporativo, chamando de moderação a covardia de não enfrentar sindicato nenhum, e de responsabilidade europeia a submissão a burocratas em Bruxelas que ninguém elegeu.
Há uma lição histórica que os franceses, ironicamente, conhecem melhor do que ninguém e insistem em esquecer: nenhuma monarquia caiu por excesso de austeridade. Cai por excesso de gasto, por dívida impagável, por privilégios acumulados até o ponto em que o povo desconfia que o rei e a corte vivem em outro planeta. Luís XVI convocou os Estados Gerais em 1789 porque a França estava falida, não porque queria democratizar. O que veio depois, todo mundo aprendeu na escola. Duzentos e trinta e oito anos depois, a Quinta República se aproxima do mesmo abismo fiscal, com a diferença de que agora chamam de progresso o que antes se chamava de esbanjamento aristocrático. Trocaram o palácio de Versalhes pelos gabinetes de Bercy, mas a lógica é idêntica.
Quem quer que vença em 2027 herdará uma bomba que não é sua, mas explodirá em seu colo. E aí veremos se a França redescobre a coragem de fazer o que precisa ser feito, ou se prefere seguir dançando enquanto o convés afunda, contando com o resgate europeu que talvez, dessa vez, não venha. Porque a Alemanha, do outro lado do Reno, já está farta de pagar a festa alheia. E paciência de contribuinte tem limite, mesmo o do contribuinte alemão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.