Chegou a temporada em que analistas de banco vestem terno, abrem planilha e começam a repetir a mesma ladainha de sempre: as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos vão "definir o rumo dos mercados". Historicamente, dizem eles, o S&P sobe em média tanto por cento nos doze meses seguintes ao pleito, o dólar reage, os treasuries oscilam. É um ritual quase litúrgico, útil para vender relatório e justificar bônus, mas que ignora deliberadamente o único fato que importa: quem ganha a eleição não decide o preço do dinheiro. Isso é decidido em uma sala fechada de Washington, por meia dúzia de doutores que ninguém elegeu, e que continuarão lá independentemente de quem senta na Casa Branca ou controla o Congresso.

Olha, o teatrinho funciona mais ou menos assim. Se os republicanos avançam, o mercado "precifica" corte de impostos e desregulamentação. Se os democratas seguram a Câmara, precifica gasto público e transferência de renda. E o que efetivamente acontece nos dois casos? Déficit fiscal batendo recordes, dívida pública que ultrapassou trinta e seis trilhões de dólares, e um Tesouro americano rolando papel novo para pagar papel velho como um lojista quebrado descontando cheque pré-datado. A diferença entre o gasto de um governo e do outro, nas últimas três décadas, é a mesma diferença entre dois bêbados discutindo qual bebida faz menos mal ao fígado.

Quer dizer, a promessa do republicano é cortar imposto sem cortar gasto, e a promessa do democrata é aumentar gasto sem aumentar imposto o suficiente para pagar. Os dois lados chegam ao mesmo destino por caminhos diferentes: a impressora. E aí entra o truque contábil mais antigo da história, aquele em que o governo não confessa que está roubando o poder de compra da sua poupança porque o roubo é diluído, silencioso, disfarçado de "estímulo", "flexibilização", "acomodação monetária". A conta chega, sempre chega, mas ela vem em forma de aluguel mais caro, supermercado mais salgado, aposentadoria que já não compra o que comprava. E o eleitor, tadinho, ainda agradece o cheque de estímulo que recebeu, sem perceber que pagou por ele três vezes.

Siga o dinheiro e você entende o resto. As grandes campanhas de meio de mandato movimentam bilhões de dólares, e esse dinheiro não vem de padeiro nem de encanador. Vem de fundos de private equity, de gigantes farmacêuticas, do complexo militar-industrial, de big tech, de sindicatos federais. Cada dólar doado é uma nota promissória cobrada depois na forma de subsídio, contrato público, isenção fiscal setorial, regulação sob medida que quebra o concorrente pequeno. O eleitor acha que está escolhendo entre esquerda e direita; na prática, escolhe qual grupo de rentistas vai comer primeiro no bufê do Tesouro. É capitalismo de compadrio em escala continental, com bandeirinha vermelha e azul para distrair a plateia.

E os mercados, esses sim, sabem exatamente o que estão fazendo. Não estão precificando democracia, estão precificando qual setor será favorecido nos próximos vinte e quatro meses. Se vence o time A, sobem defesa e energia fóssil. Se vence o time B, sobem renováveis e healthcare subsidiado. É rotação de carteira, não veredicto do povo. E o pequeno investidor brasileiro que acompanha CNBC achando que está entendendo geopolítica na verdade está apenas assistindo à divisão de despojos de um império que já não produz o que consome, que já não poupa o que gasta, e que sustenta seu padrão de vida imprimindo a moeda de reserva do planeta enquanto o resto do mundo, incluindo nós, engole a inflação exportada em silêncio.

A verdade que ninguém quer dizer em rede aberta é que a eleição americana virou espetáculo caro para decidir quase nada de essencial. O rumo da economia dos Estados Unidos, e por tabela do mundo, foi terceirizado há décadas para uma burocracia monetária blindada contra o voto, alimentada por um Congresso que só sabe gastar e uma Casa Branca que só sabe prometer. Enquanto isso, o brasileiro que precifica seus ativos em dólar deveria estar menos preocupado com quem ganha a Pensilvânia e mais preocupado com o dia em que o mercado global finalmente perceber que o rei está nu. Esse dia chega. Sempre chega.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.