O endowment da Universidade da Carolina do Norte fechou o ano fiscal com retorno de 37,8%, muito acima da média das grandes universidades americanas, e a explicação cabe em uma palavra: SpaceX. A gestora do fundo apostou pesado em ações da empresa de Elon Musk quando ela ainda era vista como aventura de bilionário excêntrico, e agora colhe o que semeou enquanto Harvard, Yale e companhia amargam retornos pífios com portfólios engessados em private equity tradicional e imóveis comerciais que ninguém mais quer alugar. A ironia é deliciosa: a universidade menos prestigiada do grupo da Ivy sombra ganhou de todas porque teve algo que dinheiro nenhum compra, discernimento para enxergar valor onde o consenso via loucura.
Repare no detalhe que a imprensa financeira brasileira vai fingir que não viu. O ativo campeão do fundo é uma empresa privada, fechada, sem IPO, que só existe porque o governo americano, por preguiça e incompetência da NASA, precisou terceirizar o que jurava ser função indelegável do Estado. Quer dizer, o mesmo Estado que passou décadas queimando bilhões de dólares dos contribuintes em foguetes que explodiam na rampa acabou sendo salvo por um empreendedor que fez em uma década, com capital privado, o que a burocracia espacial não conseguiu em cinquenta anos. E agora o retorno desse trabalho está engordando o patrimônio de uma universidade que vai usar o dinheiro para financiar bolsa de estudo. Siga o dinheiro e você verá a coisa mais bonita do capitalismo: valor criado no setor privado voltando como educação, sem precisar do intermediário fardado.
Compare com a paisagem brasileira e chore. O fundo de pensão do servidor público federal, a Funpresp, tem no seu regulamento amarras que impediriam qualquer gestor de fazer o que o pessoal da Carolina do Norte fez. Aqui, o dinheiro do trabalhador é obrigado a comprar título do Tesouro que rende menos que a inflação real, a financiar BNDES que empresta a juro subsidiado para amigo do rei, a bancar operação estruturada que enriquece consultor e empobrece cotista. O resultado é aposentado que descobre aos setenta anos que sua poupança virou pó, enquanto o gestor que seguiu o manual do politicamente correto financeiro sai ileso, com bônus e recolocação garantida no mercado.
Tem gente que vai dizer que a UNC teve sorte, que apostar em uma única empresa é irresponsabilidade, que a diversificação clássica é a receita segura. Olha, essa é a conversa que os medíocres inventaram para explicar por que os ousados ganham mais dinheiro do que eles. A verdade é que o retorno médio é o prêmio do medo, e quem quer resultado extraordinário precisa ter tese, convicção e estômago. O gestor da UNC tinha as três coisas. Os brasileiros do CVM, da Previc e da ANBIMA, com suas mil regras de compliance, garantem que nenhum gestor daqui possa ter nenhuma das três. Depois reclamam que o mercado de capitais nacional é anêmico.
Me diz uma coisa, por que uma universidade estadual de segunda linha nos Estados Unidos pode alocar patrimônio em uma empresa de foguete, e um fundo brasileiro de trabalhador não pode nem chegar perto de uma ação de tecnologia sem gerar processo administrativo? A resposta é que aqui o regulador não confia no cidadão, no gestor, no mercado, em ninguém, e resolveu que todo mundo tem que ser tratado como incapaz. O preço dessa desconfiança institucional é medido em rentabilidade perdida, em aposentadoria menor, em país mais pobre. Cada regra que "protege" o investidor pequeno o condena a envelhecer sem patrimônio, enquanto o americano que teve seu dinheiro tocado por alguém com liberdade para pensar vai poder pagar a faculdade do neto.
O que não se vê nessa notícia é o Brasil paralelo que poderia existir se os gestores daqui tivessem a mesma liberdade dos de lá. As empresas brasileiras que poderiam ter recebido capital de longo prazo, os empreendedores que poderiam ter escalado sem depender de BNDES, as inovações que morreram antes de nascer porque ninguém teve permissão regulatória para bancá-las. A UNC ganhou 37,8% porque um país inteiro decidiu, há duzentos e cinquenta anos, que a liberdade econômica não é privilégio, é pressuposto. Aqui, ainda achamos que liberdade é perigo, e por isso continuamos assistindo, do balcão, os outros ficarem ricos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.