Enquanto o oncologista brasileiro assina atestado de óbito de pacientes que morreram esperando aprovação, laboratórios lá fora anunciam que o Enhertu, aquele conjugado anticorpo-droga que já vinha mostrando resultado em câncer de mama, agora demonstrou benefício claro em sobrevivência livre de progressão no câncer de pulmão de células não pequenas com mutação HER2. Traduzindo do medicalês para o português: pacientes que estavam condenados a poucos meses ganharam tempo. Tempo real, medido em ensaio clínico controlado, não em promessa de campanha. E a pergunta que ninguém no Ministério da Saúde vai fazer é a mais óbvia: quantos brasileiros vão morrer entre o anúncio de hoje e a liberação da Anvisa daqui a dois, três, cinco anos?
Olha, existe uma indústria inteira construída sobre a mentira de que o regulador protege o consumidor. Ele protege, sim, mas contra a vida, não contra o remédio. Cada mês de atraso na aprovação de uma terapia oncológica com eficácia comprovada é um cemitério silencioso que ninguém contabiliza porque os mortos não aparecem na estatística de reação adversa, aparecem apenas na estatística de mortalidade da doença de base. Aquele efeito colateral de um medicamento aprovado é manchete; aquele paciente que morreu porque o medicamento não foi aprovado é apenas mais um número frio no boletim epidemiológico. O que se vê é a segurança do regulador; o que não se vê é o caixão de quem não teve tempo de esperar a assinatura do burocrata.
Me diz uma coisa: por que uma molécula aprovada pela FDA americana, pela EMA europeia e pela agência japonesa precisa passar novamente pelo ritual completo aqui, como se médicos brasileiros fossem incapazes de ler literatura em inglês? A resposta não está na ciência, está na captura regulatória. Cada camada extra de exigência é uma barreira de entrada que favorece o laboratório grande, que tem departamento jurídico para navegar o labirinto, e destrói o pequeno inovador. O paciente paga a conta duas vezes: uma no preço inflado pelo custo regulatório, outra no tempo perdido esperando a benção estatal para tomar aquilo que japoneses já tomam há anos.
E vale seguir o dinheiro, porque o dinheiro sempre conta a verdade que o comunicado oficial esconde. As ações da AstraZeneca subiram, as da Daiichi Sankyo idem, e isso é bom, é o mercado sinalizando que apostar em pesquisa que salva vida ainda dá retorno. Só que enquanto isso, o SUS negocia protocolos daqui a três exercícios fiscais, a operadora de plano de saúde inventa carência criativa para não cobrir, e o judiciário vira balcão de emergência de quem tem advogado e não tem tempo. O direito à saúde, na prática, é o direito de processar o Estado que prometeu o que não pode entregar. Bela farsa constitucional.
O câncer de pulmão com mutação HER2 é raro, dirão os defensores da lentidão regulatória, e por isso não vale a pressa. Quer dizer, para o burocrata é raro; para o paciente é cem por cento. Cada vida individual é um universo inteiro, e tratar estatística como se fosse ética é a doença moral da era do planejamento central. Uma sociedade que decide quem vive e quem morre em função da fila da agência reguladora não é uma sociedade civilizada, é uma versão sofisticada da roleta russa administrativa. A ciência produziu a bala; o Estado é quem carrega o tambor e gira.
Que o Enhertu avance, que a pesquisa continue, que o mercado premie quem inova e destrua quem estagna. E que fique registrado, para quem tiver coragem de ler: cada dia de demora na aprovação de uma terapia eficaz não é prudência regulatória, é homicídio culposo administrativo em escala industrial. A liberdade de tratar-se com o que existe é tão fundamental quanto a liberdade de falar o que se pensa, e quem confisca uma acaba confiscando a outra.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.