A tese apresentada esta semana é de uma elegância quase cômica: para tornar a inteligência artificial segura, precisamos de ainda mais capacidade computacional, não menos. Traduzindo do dialeto do Vale do Silício para o português do contribuinte, isso significa que os mesmos executivos que passaram os últimos três anos pedindo moratórias, comitês de ética e regulação global agora descobriram, veja só que coincidência, que a solução exige exatamente aquilo que eles vendem. Mais GPUs. Mais data centers. Mais contratos bilionários de energia. E, claro, mais subsídios públicos disfarçados de política industrial estratégica.

Convém olhar para o que não se vê. Cada megawatt desviado para treinar modelos de alinhamento é um megawatt que não aquece uma casa, não move uma fábrica, não ilumina um hospital. Cada dólar público injetado no setor sob o guarda-chuva da segurança nacional é um dólar tirado de alguém que trabalhou para ganhá-lo. O emprego criado no data center é visível, a manchete é bonita, o corte de fita é solene. O pequeno empresário que fechou porque a tarifa de energia dobrou não aparece na foto. O aposentado que paga imposto para financiar o parque de servidores da big tech também não. E, no entanto, são eles que sustentam a festa.

Siga o dinheiro e o teatro se desfaz. Quem lucra com a narrativa de que a IA precisa ser contida por meio de mais IA? Exatamente as três ou quatro empresas capazes de operar na escala exigida. A regulação proposta em nome da humanidade, por uma coincidência que só os ingênuos ainda acham fortuita, ergue justamente as barreiras de entrada que impedem qualquer concorrente de aparecer. É o velho truque do capitalismo de compadrio, agora vestido de branco de laboratório: o incumbente escreve a lei, o burocrata assina, o consumidor paga e o competidor morre no berço. Chamam isso de responsabilidade civilizacional. O nome correto é reserva de mercado.

Há também um problema epistêmico que ninguém no comitê de segurança se dá ao trabalho de admitir. Nenhum planejador, por mais bem intencionado, por mais premiado, por mais bem pago, possui a informação necessária para decidir qual é a quantidade certa de capacidade computacional que a humanidade deveria consumir para estar segura. Essa informação está dispersa entre bilhões de pessoas, empresas e usos que nenhum comitê é capaz de imaginar. Toda vez que um pequeno grupo de iluminados presume saber o volume ótimo de qualquer coisa, o resultado é o mesmo: escassez onde precisava haver abundância, e desperdício monumental onde bastava um pouco.

E há ainda o argumento moral, o mais insidioso de todos. Nos dizem que precisamos aceitar concentração de poder, aumento de tarifa, expansão regulatória e vigilância algorítmica porque tudo isso é feito para o nosso bem. Ora, a tirania exercida em nome do próprio bem da vítima é a única que jamais descansa, porque a consciência do carcereiro o absolve todas as noites. Quem controla os cálculos controla o discurso, controla o preço, controla a produção e, no fim, controla o que você pode ou não pode pensar sobre o assunto. Não existe segurança em delegar essa chave a quem também detém o cofre.

A pergunta honesta não é quanta computação a mais precisamos para nos proteger da IA. A pergunta é de quem precisamos nos proteger quando nos dizem que a resposta para todo problema é dar mais poder a quem já tem demais. Enquanto seguirmos aceitando que segurança rima com centralização, vamos financiar, watt a watt, real a real, a construção da coleira que um dia vão nos vender como colar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.