A AstraZeneca anunciou que o estudo SERENA-4, teste de fase três que colocava o camizestrant combinado a um inibidor de CDK4/6 como primeira linha de tratamento para câncer de mama avançado com receptor hormonal positivo, não bateu o desfecho primário de sobrevida livre de progressão. Traduzindo do dialeto corporativo para o português dos mortais, o remédio caríssimo, que os investidores já contavam como blockbuster garantido, não provou ser melhor do que o padrão que já existia. As ações caíram, os relatórios foram reescritos às pressas, e a empresa emitiu aquele comunicado clássico em que se diz que os resultados serão apresentados em congresso científico futuro, como se um velório pudesse ser reagendado para virar festa.

Olha, tem uma coisa que a indústria farmacêutica não gosta que você entenda com clareza, e é justamente esta: o desenvolvimento de medicamentos é um mercado brutalmente arriscado, onde nove em cada dez moléculas que entram em ensaio clínico morrem no caminho, e o preço do décimo que sobrevive precisa pagar os nove que fracassaram, os regulatórios de meia dúzia de agências e ainda deixar margem para os acionistas. Isso não é maldade da farmacêutica, é aritmética. E aqui está o ponto que ninguém quer discutir, quando o governo entra criando exigências regulatórias infinitas, quando as agências pedem estudos cada vez maiores e mais longos, cada fracasso desses custa mais caro, e o custo é repassado no preço final ao paciente. Você viu a manchete do fracasso; o que você não viu foi a fila de pacientes que vão pagar mais caro pelos remédios que deram certo justamente porque este aqui deu errado.

E tem uma ironia deliciosa no timing. A mesma indústria que passou os últimos anos sendo aplaudida como salvadora da humanidade durante a pandemia, recebendo bilhões em contratos governamentais garantidos por adiantado, com passivo civil transferido para o contribuinte via acordos de indenização, agora tropeça em um estudo de câncer de mama e o mercado descobre, chocado, que a farmácia não é um caça-níquel infalível. Quer dizer, quando os cofres públicos abrem, o risco é do contribuinte; quando o teste falha em um remédio que ia ser vendido no mercado privado, o risco volta a ser dos acionistas. É o velho arranjo, socialização das perdas quando convém, privatização dos lucros quando dá certo, e o cidadão comum pagando das duas formas.

Vale seguir o dinheiro por um segundo. Um estudo de fase três dessa magnitude custa entre trezentos milhões e um bilhão de dólares, dependendo do número de pacientes, países envolvidos e duração. A AstraZeneca projetava, segundo relatórios de bancos de investimento, receitas potenciais de vários bilhões anuais para o camizestrant. Esse dinheiro não some, ele é redistribuído, os acionistas absorvem perda de capital, os funcionários do programa são realocados, os hospitais que participaram do estudo já receberam seus honorários, e os pacientes que estavam no braço experimental voltam ao tratamento padrão. O mercado, feio e frio como sempre, faz o que nenhum burocrata em Bruxelas ou Brasília jamais conseguiria fazer, encerra um projeto que não funcionou e realoca capital para o próximo que pode funcionar. Sem comissão parlamentar de inquérito, sem CPI, sem lamúrias midiáticas por três meses.

Compare isso, se você tiver estômago, com o que acontece quando o Estado insiste em um projeto fracassado. Refinaria de Pasadena, estaleiros do Rio Grande do Sul, banda larga popular, hospital do câncer aqui e ali que virou esqueleto de concreto. No mundo privado, o fracasso é reconhecido em vinte e quatro horas por uma linha de comunicado à CVM britânica. No mundo estatal, o fracasso vira monumento, vira sinecura, vira emprego de cabo eleitoral, vira dívida perpétua paga pelo neto do contribuinte que já morreu esperando o hospital abrir.

Fica então a lição que a queda das ações da AstraZeneca hoje ensina de graça, e que os planejadores centrais de todos os matizes se recusam a aprender. O mercado erra, e erra caro, mas corrige rápido e cobra dos erradores. O Estado erra, e erra caríssimo, mas maquia os balanços e cobra dos inocentes. Um estudo clínico que fracassa em Londres é uma tragédia para os pacientes que esperavam a cura e um prejuízo mensurável para quem apostou. Um programa estatal que fracassa em Brasília é uma tragédia eterna reciclada em campanha eleitoral. Da próxima vez que alguém propuser que o governo tome conta da inovação farmacêutica em nome do bem comum, lembre desta manhã de setembro em que uma empresa aceitou, sem choro nem penduricalho, que seu remédio não funcionou. É isso que a liberdade econômica faz: transforma erro em aprendizado em vez de transformar erro em causa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.