Quatro bilhões e meio de dólares evaporaram dos ETFs de ações americanas em uma semana, e o motivo declarado é constrangedor: os apostadores finalmente perceberam que os juros não vão cair no ritmo que os gurus de Wall Street prometeram no café da manhã de janeiro. Quer dizer, o mercado gastou meses precificando cortes generosos, distribuindo relatórios com setas apontando para baixo, e agora corre para a saída como se tivesse acabado de descobrir água quente. O que estava travestido de análise técnica era, no fundo, torcida organizada por dinheiro barato.

Olha, essa fuga não é sofisticação, é reação atrasada a um fato que qualquer um com dois neurônios funcionando já sabia: quando o banco central inunda o sistema com liquidez por uma década, os preços dos ativos sobem não porque as empresas ficaram mais produtivas, mas porque o dinheiro ficou mais abundante. É aritmética de padaria. E quando a mesma autoridade que fabricou a bebedeira se recusa a servir a próxima dose, a cabeça começa a doer. A saída dos ETFs é a aspirina tardia de quem bebeu demais confiando no barman.

Me diz uma coisa: onde estava esse pessoal cauteloso quando o índice batia recordes semanais impulsionado por sete ações e uma narrativa sobre inteligência artificial? Estavam comprando, obviamente. O mesmo gestor que hoje resgata cota alegando prudência macroeconômica estava, seis meses atrás, publicando carta trimestral sobre o novo paradigma tecnológico que justificava múltiplos absurdos. O rebanho não pensa, o rebanho corre. Primeiro corre para dentro porque todos estão comprando, depois corre para fora porque todos estão vendendo. Chama-se isso de gestão profissional e cobra-se dois por cento de taxa de administração.

O que quase ninguém escreve, e é o miolo da história, é quem lucra com esse vaivém. Enquanto o pequeno investidor entra na bolsa lendo manchete otimista e sai lendo manchete pessimista, os grandes fundos vendem quando o povo compra e compram quando o povo vende. A volatilidade não é bug, é o modelo de negócios. E o Fed, com suas sinalizações dúbias e reuniões teatrais, é o maestro involuntário dessa transferência de patrimônio dos ingênuos para os iniciados. Cada palavra do presidente do banco central move trilhões, e adivinha quem tem acesso privilegiado à interpretação correta.

Tem também o lado que ninguém quer discutir: os juros altos, que hoje assustam o mercado acionário, são o preço tardio de anos de gastança fiscal desenfreada em Washington. O Tesouro americano continua emitindo dívida como se não houvesse amanhã, e o banco central precisa manter os juros no alto para que alguém queira comprar essa papelada. Ou seja, o investidor de ETF está pagando, na forma de queda das suas posições, a conta dos pacotes de estímulo, dos subsídios verdes e das aventuras militares dos últimos governos. Ele só não sabe que está pagando, porque a fatura chega disfarçada de correção de mercado.

No fim das contas, a lição é sempre a mesma e ninguém aprende: quando a autoridade monetária promete que dessa vez é diferente, é hora de segurar a carteira com as duas mãos. A bolsa não é cassino, é termômetro de decisões políticas, e essas decisões foram, são e continuarão sendo tomadas por gente que não corre nenhum risco pessoal ao errar. Você corre. O gestor do seu fundo corre. O Fed, não. E enquanto essa assimetria existir, cada ciclo de euforia terminará exatamente como este: com manchete constrangida sobre saída de bilhões e uma multidão coçando a cabeça, perguntando como não viram o óbvio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.