A notícia chega com aquele ar de vitória burocrática que só um comunicado oficial consegue produzir. O CDC anuncia solenemente que o maior surto de ciclosporíase já registrado nos Estados Unidos foi debelado, depois de infectar mais de mil pessoas em dezenas de estados. Ninguém pergunta o óbvio: se a agência mais bem financiada de vigilância epidemiológica do planeta ocidental levou meses para identificar a fonte, rastrear a cadeia e emitir alerta útil, para que exatamente servem os bilhões de dólares que os contribuintes americanos derramam nela todo ano? A conta é sempre paga na frente, o serviço nunca é entregue no prazo, e o comunicado de encerramento vem com tom de heroísmo.
O parasita em questão é conhecido, o vetor é quase sempre o mesmo, produto fresco importado, e o roteiro se repete há décadas com pontualidade de trem suíço. Frutas e verduras entram por portos e aeroportos, passam por uma inspeção que existe mais no organograma do que na prática, chegam às prateleiras dos supermercados, adoecem consumidores em quinze estados, e só então a máquina de vigilância acorda para investigar. Enquanto isso, a mesma agência que não consegue rastrear um parasita microscópico em tempo hábil emite guias de setecentas páginas sobre o que a dona de casa deve ou não colocar no prato da criança. Sobra régua para o cidadão comum, falta olho para o problema real.
Siga o dinheiro e o quadro fica ainda mais interessante. O sistema americano de importação de hortifrutis é um arranjo cuidadosamente costurado entre grandes distribuidores, agências federais e legisladores que recebem contribuições de campanha das duas pontas dessa cadeia. Toda vez que um surto acontece, a resposta institucional é a mesma: criar mais uma camada de regulação que os pequenos produtores não conseguem cumprir e os grandes absorvem sem esforço, consolidando ainda mais o mercado nas mãos de meia dúzia de conglomerados. O consumidor paga em preço mais alto, em variedade menor e, quando dá azar, em diarreia crônica de semanas.
O que se vê é o comunicado triunfal do fim do surto. O que não se vê são as mil pessoas que ficaram doentes, os milhares que ficaram sem diagnóstico porque médicos não pedem exame para parasita quando o paciente reclama de intestino, os pequenos produtores que sumirão do mercado na próxima rodada regulatória, e o precedente burocrático que garante que na próxima vez tudo vai acontecer exatamente igual. O Estado moderno aperfeiçoou a arte de transformar sua própria incompetência em justificativa para expandir seu poder, e a saúde pública é o setor onde esse truque funciona melhor, porque ninguém quer ser visto argumentando contra a proteção das criancinhas.
A grande lição, que naturalmente ninguém vai extrair, é que a promessa de segurança total oferecida pelo Estado terapêutico é uma fraude que se sustenta apenas porque o cidadão desaprendeu a se proteger sozinho. Havia um tempo em que se lavava alface com vinagre porque a avó ensinou, não porque o CDC publicou um infográfico. Havia um tempo em que se desconfiava de morango fora de época porque isso significava alguma coisa. Trocamos esse conhecimento vivo, acumulado geração após geração, por um sistema centralizado que promete cuidar de tudo e não cuida de quase nada, cobrando caro pela ilusão de proteção que oferece.
No fim, o surto termina como sempre termina, com uma nota à imprensa, uma promessa de novas medidas e a certeza matemática de que o próximo já está a caminho, provavelmente contaminando uma remessa de coentro num galpão da Flórida enquanto você lê estas linhas. A vigilância chega tarde porque o incentivo dela é chegar tarde: se resolvesse os problemas antes de virarem manchete, ninguém pediria mais orçamento no ano seguinte. É o tipo de mecanismo perverso que só sobrevive porque quase ninguém tem coragem de olhar para ele de frente e chamar pelo nome.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.