O anúncio veio embrulhado no papel de presente diplomático de sempre, aquele que a imprensa oficial adora chamar de "acordo estratégico" para não usar a palavra correta, que é vassalagem. Os Estados Unidos ganharam acesso militar permanente à Groenlândia, com direito a instalar bases, sobrevoar o que quiserem e movimentar tropas sem pedir por favor. A Dinamarca, potência imperial de brinquedo que ainda finge administrar aquele pedaço de gelo continental, assina embaixo e sorri para as câmeras. Os groenlandeses, que somam menos habitantes que um bairro de classe média de São Paulo, foram consultados no mesmo grau em que o gado é consultado sobre a marca do frigorífico.
Convém lembrar que este mesmo território foi oferecido à venda em 2019 e a Dinamarca reagiu com aquela indignação teatral típica de quem sabe que, no fundo, o dono verdadeiro já mora dentro de casa desde 1951, quando o tratado de defesa entregou o quintal ártico para a base aérea de Thule. O que se assinou agora não é novidade, é apenas a formalização escancarada de um arranjo antigo: o inquilino resolveu que já pagou aluguel suficiente e agora coloca o nome dele na escritura, com anuência do proprietário nominal, que continua recolhendo a taxa de administração e mantendo a placa na porta. É o esquema clássico do laranja geopolítico, e funciona porque a alternativa seria explicar aos contribuintes escandinavos por que precisam sustentar sozinhos a defesa de uma ilha que ninguém consegue apontar no mapa.
Siga o dinheiro, como sempre, e o cenário se ilumina. Debaixo daquele gelo dormem terras raras, urânio, cobalto, níquel, tudo o que a indústria bélica e a fantasia verde da transição energética exigem em quantidades industriais. Some a isso as rotas árticas que se abrem à medida que a temperatura sobe, encurtando trajetos comerciais que hoje dependem de estreitos vigiados por chineses e russos. Não se trata, portanto, de defender esquimós de invasores imaginários; trata-se de fincar bandeira sobre uma mina a céu aberto do tamanho de três Argentinas, financiada com o suor do contribuinte americano e batizada com o vocabulário sagrado da segurança nacional, expressão coringa que autoriza qualquer coisa desde que dita com cara séria.
A parte cômica, se é que sobra graça em circo desses, é a encenação da soberania preservada. Os comunicados oficiais fazem questão de sublinhar que o território continua dinamarquês, como se a soberania fosse um adesivo colado na porta e não o poder efetivo de dizer quem entra e quem sai. Quando um vizinho instala câmeras, coloca cachorro, guarda a chave reserva e decide o horário do portão, chamar aquilo de sua casa é exercício de autoconsolo. A geopolítica moderna aperfeiçoou essa arte, a de dominar sem anexar, cobrar sem tributar diretamente, mandar sem ter o incômodo de administrar. É o imperialismo enxuto, terceirizado, com carimbo de multilateralismo para não assustar as almas sensíveis das redações progressistas.
Enquanto isso, o brasileiro médio, que paga imposto para o Estado esclarecido regulamentar o tamanho do canudinho e o teor de gordura do biscoito recheado, é convidado a se emocionar com a narrativa de que tudo isso é feito em nome da liberdade e da ordem mundial baseada em regras. Regras escritas por quem? Impostas a quem? Fiscalizadas por quem? O silêncio dessas respostas é o barulho mais alto do noticiário. A ilha vira base, a base vira território, o território vira feudo, e no final da linha o custo aparece na conta de luz, no combustível, no preço do arroz, porque toda expansão militar se paga com inflação, e inflação é o imposto que ninguém votou mas todos financiam.
Restam duas certezas, ambas desagradáveis para os apaixonados por bandeirinhas alheias. A primeira é que nenhum império jamais devolveu voluntariamente um pedaço de chão que valia a pena manter, e o Ártico vale muito. A segunda é que a mesma lógica que hoje transforma a Groenlândia em porta-aviões permanente é a que amanhã transformará qualquer outro pedaço de terra útil em ativo estratégico, incluindo, por acaso, a nossa Amazônia, sobre a qual as mesmas vozes bem-intencionadas já ensaiam faz tempo o discurso da tutela internacional. Quem paga a conta somos nós; quem recebe já está contando o troco em Washington, Copenhague e nos escritórios das mineradoras que vão desembarcar assim que o degelo permitir. O resto é folclore para consumo doméstico.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.