O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra a BitBank, exchange iraniana acusada de servir de dutovia para o regime de Teerã escapar do embargo financeiro imposto pelo Ocidente. A narrativa oficial é a de sempre, o combate ao terrorismo, a defesa da ordem internacional, a proteção do sistema financeiro global contra atores maliciosos. Traduzindo do burocratês para o português, o império descobriu que existe um cano por onde o dinheiro passa sem pedir licença, e decidiu fechá-lo na marra.

Quer dizer, a mesma potência que passou os últimos vinte anos imprimindo dólar como se papel crescesse em árvore, financiando guerras eternas no Oriente Médio e transformando o sistema bancário internacional em braço armado da própria política externa, agora se apresenta como guardiã moral das finanças mundiais. É de rir se não fosse trágico. O que está em jogo aqui não é a virtude do Tesouro americano, é o monopólio. Cripto nasceu justamente porque milhões de pessoas ao redor do planeta perceberam que confiar num Banco Central estrangeiro para guardar valor é o mesmo que entregar as chaves de casa ao vizinho que vive dizendo que a sua propriedade é dele.

Olha, o Irã é uma tirania teocrática abominável, ninguém discute isso. Mas o argumento de que sancionar uma exchange resolve alguma coisa é do mesmo nível intelectual de proibir faca porque existe assassinato. A tecnologia é neutra, o protocolo é neutro, o que Washington está sancionando de verdade é a ideia perigosíssima de que o cidadão comum, iraniano, argentino, venezuelano, brasileiro, possa guardar seu suor num ativo que o Estado dele não controla e que o Estado americano tampouco controla. Isso é insuportável para qualquer governo, porque atinge o coração do poder moderno, que é a capacidade de confiscar via inflação sem chamar de confisco.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Cada sanção dessas empurra o Irã, a Rússia, a China e meio mundo emergente para os braços de sistemas de pagamento alternativos, de moedas paralelas, de acordos bilaterais em yuan, rublo, ouro, ativos digitais que não passam pelo carimbo do Tesouro americano. O dólar como moeda de reserva global foi construído sobre a promessa implícita de que ninguém seria excluído arbitrariamente do sistema. Quebrada essa promessa, o mercado faz o que sempre faz, procura substituto. E adivinhe quem prospera nesse cenário? Justamente os protocolos descentralizados que Washington finge combater enquanto acelera sua adoção.

Existe algo profundamente cômico na cena de um governo que socorre bancos falidos com trilhões de dólares recém-criados, que financia déficits astronômicos monetizando dívida pública, e que ainda por cima criminaliza qualquer arranjo financeiro fora do seu perímetro, se apresentando como defensor da estabilidade monetária. É o ladrão gritando pega ladrão em escala planetária. E o mais grave, o que se vê é a manchete sobre o Irã. O que não se vê é o precedente. Se hoje é a BitBank iraniana, amanhã pode ser qualquer exchange que hospede carteira de dissidente cubano, de jornalista russo, de comerciante venezuelano, de brasileiro que ousou tirar patrimônio do alcance do Fisco. A régua se estica sempre, nunca encolhe.

A lição para quem tem olhos de ver é antiga e óbvia. Quem entrega a definição de dinheiro ao Estado entrega também a definição de liberdade, de propriedade e, no limite, de si mesmo. As sanções não vão derrubar o regime iraniano, não vão parar o desenvolvimento tecnológico, não vão salvar o dólar da erosão que ele mesmo se autoinflige. Vão, isso sim, acelerar a fragmentação monetária global e cavar mais fundo a desconfiança no arranjo que sustentou setenta anos de hegemonia americana. Império que precisa proibir concorrente para se manter no trono já perdeu o trono; só ainda não avisaram ao rei.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.