Três soldados americanos morreram na base Tower 22, na fronteira entre Jordânia e Síria, atingidos por um drone que ninguém explicava direito como havia furado o cerco antiaéreo com precisão cirúrgica. Agora o Pentágono aponta o dedo para o culpado invisível: imagens de satélite comerciais fornecidas por uma empresa chinesa a intermediários iranianos, que teriam entregado de bandeja o desenho da base, o padrão dos turnos, a distância entre as barracas. O drone não errou porque alguém, em algum escritório em Pequim, vendeu o mapa. E vendeu com nota fiscal.

Olha, quando se fala em capitalismo de compadrio, o brasileiro imagina empreiteira financiando campanha. É pouco. O modelo chinês elevou a coisa a patamar civilizatório: empresa privada de fachada, capital estatal por trás, tecnologia dual, cliente final terrorista com passaporte diplomático. Ninguém aperta o gatilho, ninguém assina o cheque, ninguém aparece na foto. O crime foi cometido por um algoritmo de posicionamento orbital, e o algoritmo, como se sabe, não presta depoimento na CPI. Enquanto isso, três famílias americanas recebem a bandeira dobrada em triângulo e a explicação de que o filho morreu por um satélite civil.

Quer dizer, o mercado livre é a coisa mais bela que a humanidade inventou, mas ele pressupõe algo que a China finge não entender: a moldura moral e jurídica que separa comércio de cumplicidade. Vender satélite é livre iniciativa. Vender coordenadas de alvo militar para regime que financia milícia é logística de assassinato. A confusão deliberada entre as duas coisas é o que Pequim vem cultivando há vinte anos, aproveitando a ingenuidade ocidental de que capitalismo, sozinho, civiliza qualquer um. Não civiliza. O comércio sem lei virou arma, e a arma virou terceirização.

Me diz uma coisa: por que o mesmo governo americano que hoje se choca com o satélite chinês passou décadas transferindo tecnologia, capital e cadeia produtiva para lá, sob o argumento de que a integração comercial produziria democracia por osmose? A tese era bonita, o resultado é a lista de baixas em Tower 22. Cada dólar mandado para Xangai nos anos noventa comprou um pedaço da microeletrônica que hoje sobrevoa a Jordânia carregando explosivo iraniano. Isto se chama, no jargão técnico, o que não se vê. O emprego criado pela globalização virou manchete, o soldado morto virou nota de rodapé, e o intelectual de Davos continua defendendo que precisamos de mais interdependência.

O ciclo é conhecido de quem já leu duas páginas de história. Império decadente financia a ascensão do rival por preguiça, por ganância dos exportadores próprios, por captura regulatória de quem lucra com o arranjo, e por uma classe política que confunde balança comercial com política externa. No fim, o rival usa o dinheiro que o império lhe deu para armar o inimigo comum do império. Roma pagou tributo aos hunos antes de ser saqueada por eles. Constantinopla comprou canhões dos otomanos antes de cair sob os canhões dos otomanos. Washington financiou a fábrica que hoje mira Washington. Nada aqui é novo, exceto a resolução das imagens.

A conclusão desconfortável, aquela que o editorial do New York Times jamais escreverá, é que não existe comércio moralmente neutro quando um dos lados joga xadrez enquanto o outro joga damas convencido de que a competição é amistosa. A liberdade de comércio é preciosa, e por isso mesmo exige clareza sobre com quem se comercia, o que se comercia, e a que serve o que se vende. O soldado americano morto não foi vítima do capitalismo. Foi vítima da fantasia de que o capitalismo funciona sem civilização por baixo dele.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.