A notícia veio embrulhada em papel de seda diplomática, mas o conteúdo é ferro fundido. Poucos dias antes da tão anunciada cúpula entre Trump e Xi Jinping, o Departamento de Estado americano fez questão de reafirmar, em voz alta e para quem quisesse ouvir em Pequim, que o guarda-chuva militar sobre Japão, Coreia do Sul e Taiwan continua rigorosamente aberto. Não é gesto casual, não é rotina burocrática. É recado. E recado que se dá antes de sentar à mesa costuma valer mais do que qualquer comunicado conjunto assinado depois do cafezinho.
Quem observa o teatro geopolítico com um mínimo de honestidade intelectual sabe que existe uma lei não escrita das negociações entre potências: quem chega desarmado, sai despido. Washington entendeu isso há muito tempo, e a China entende ainda melhor. O que se vê publicamente, a reafirmação do compromisso com os três aliados asiáticos, é apenas a ponta do iceberg. O que não se vê, e é justamente o mais importante, são as movimentações no Índico, os acordos silenciosos sobre semicondutores em Taiwan, as bases americanas nas Filipinas reativadas nos últimos anos, e o dinheiro, muito dinheiro, fluindo para complexos industriais militares de ambos os lados do Pacífico.
Siga o dinheiro e você entenderá a coreografia. Cada dólar americano investido em defesa asiática é um contrato para empreiteiros que financiam campanhas em Washington, é um posto de trabalho em Ohio, é um lobby ativo em Capitol Hill. Cada yuan chinês despejado em porta-aviões novos e mísseis hipersônicos é um general do Exército de Libertação Popular que garante sua fatia de poder no Comitê Central. A rivalidade sino-americana não é apenas ideológica; é uma máquina de reciclar dinheiro público em influência privada, dos dois lados. E quem paga a conta, como sempre, é o contribuinte que jamais foi consultado sobre nada disso.
Há também o aspecto que os analistas de banco insistem em ignorar: uma ordem espontânea de trocas, comércio e prosperidade construída ao longo de setenta anos no Leste Asiático não foi obra de nenhum planejador central. Foi resultado de milhões de decisões individuais, empresas que arriscaram capital, engenheiros que emigraram, famílias que confiaram em contratos. Quando duas potências decidem redesenhar essa arquitetura de cima para baixo, seja em nome da segurança nacional americana ou do sonho de rejuvenescimento chinês, o que se destrói é justamente aquilo que ninguém construiu deliberadamente e ninguém sabe reconstruir. A pretensão de fabricar geopolítica em laboratório é a mesma pretensão de fabricar economia em gabinete, e termina sempre no mesmo lugar.
O Brasil, é claro, assiste a tudo isso com a boca aberta e a agenda vazia, oscilando entre bajular Pequim para vender soja e cortejar Washington para não perder o dólar. Não temos estratégia porque não temos elite pensante; temos apenas burocracia enrolada em bandeira. Enquanto Trump joga xadrez tridimensional com Xi, nossos ministros ainda estão tentando entender qual é a peça que se move na diagonal. A cúpula acontecerá, apertos de mão serão fotografados, comunicados serão redigidos em linguagem hermética, e no dia seguinte tudo continuará exatamente como antes: dois impérios calculando, e os demais correndo atrás.
Fique atento ao que não será dito na coletiva de imprensa. Ali estará a verdade. O resto é encenação para consumo interno, mensagem para as respectivas plateias domésticas de que o líder foi firme, negociou duro, defendeu os interesses da nação. No fim, o Pacífico continuará sendo o tabuleiro onde se joga o século XXI, e quem não estiver na mesa estará no cardápio.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.