A EverCommerce anunciou nesta semana a ampliação do seu programa de recompra de ações em vinte e cinco milhões de dólares, e a manchete correu os terminais como se tivesse acontecido algo relevante. Aconteceu, mas não o que dizem. Recompra de ação não é benevolência corporativa, não é confiança no futuro, não é sinalização de força. É, na esmagadora maioria dos casos, um truque financeiro para inflar o lucro por ação sem precisar de fato aumentar o lucro. Divide o mesmo bolo por menos gente e finge que o bolo cresceu. Quem cai nessa merece perder dinheiro.

Olha, a lógica é grosseira quando se destrincha. A empresa pega caixa que poderia virar dividendo distribuído ao acionista, poderia virar pesquisa, poderia virar aquisição estratégica, poderia virar redução de dívida, e usa esse caixa para comprar de volta pedaços de si mesma no mercado aberto. O efeito imediato é matemático: menos ações em circulação, mesmo lucro absoluto, portanto lucro por ação maior. E adivinha qual é a métrica que dispara o bônus anual do executivo? Exatamente essa. O CEO recompra ações, o lucro por ação sobe artificialmente, o bônus dele engorda, e o acionista de longo prazo fica com uma empresa mais alavancada e menos capitalizada. Siga o dinheiro e descubra sempre quem estava na ponta receptora.

Me diz uma coisa: se a empresa realmente acredita que suas ações estão baratas, por que não usa o mesmo caixa para comprar concorrentes, expandir mercado, entrar em novo vertical? A resposta honesta é que expandir dá trabalho, exige competência operacional, pode dar errado e derrubar a ação no curto prazo. Recompra é o caminho preguiçoso, o atalho do executivo que quer bater a meta trimestral sem correr risco. E note o padrão histórico devastador: as empresas americanas gastaram mais de um trilhão de dólares por ano em recompras na última década, e quando a maré virou, várias delas descobriram que estavam ilíquidas, endividadas e sem gordura para atravessar tempestade. Boeing que o diga, comprou de volta quarenta e três bilhões em ações e depois foi mendigar socorro quando os aviões começaram a cair do céu.

Há ainda a camada monetária que ninguém quer discutir. Recompra de ações vira epidemia sempre que o juro está artificialmente baixo, porque a empresa pega dívida barata para financiar a operação. Ou seja, o dinheiro fabricado por banco central irrigou uma década inteira de engenharia acionária que não produziu absolutamente nada de valor real, só transferiu riqueza do balanço para o bolso de quem detinha opções de compra na data certa. Quando a impressora desacelera, o esquema desmonta, e sobra o mico para o pequeno investidor que comprou na alta acreditando que a empresa estava crescendo. Ela não estava crescendo. Estava se canibalizando com sorriso no rosto.

O caso da EverCommerce específicamente não é escândalo isolado, é sintoma. Uma empresa de software para pequenos comércios, num setor que exige inovação constante, escolhe alocar capital em comprar a si mesma em vez de disputar mercado. Isso diz algo sobre a visão de longo prazo da direção, e não diz nada de bom. Quando o CEO prefere manipular numerador em vez de fazer crescer a base do negócio, o investidor atento pega o dinheiro e sai andando. Deixa o aplauso para os analistas de banco que vivem de comissão sobre a compra do próximo ativo inflado.

Recompra virou o novo dividendo, com a diferença cruel de que dividendo o acionista embolsa e recompra fica no balanço fingindo que foi generosidade. Não foi. Foi contabilidade criativa vestida de estratégia, e no fim da festa alguém sempre paga a conta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.