A Evercore ISI manteve nesta semana a classificação "In Line" para a Tyler Technologies, com preço-alvo de US$ 375, e o mercado tratou o anúncio como se fosse boletim meteorológico. Ninguém questionou o óbvio. A Tyler é a empresa que vende sistemas de gestão para tribunais, prefeituras, secretarias de fazenda e departamentos de polícia nos Estados Unidos, e cresce há quinze anos consecutivos com margens que fariam qualquer petroleira corar de inveja. O detalhe que os relatórios de research educadamente ignoram é que essa receita não vem de competição, vem de captura. O funcionário público que assinou o contrato de dez anos com renovação automática não paga a conta, e o contribuinte que paga a conta nunca soube que o contrato existia.
Olha, existe uma regra silenciosa no capitalismo de compadrio que explica por que ações como a Tyler viram queridinhas de fundos conservadores. Quando o cliente é o Estado, a demanda é inelástica, o pagamento é garantido pelo poder de tributar, e a saída do fornecedor custa milhões em migração de dados. É o modelo de negócio dos sonhos, e é exatamente o modelo que nenhum livro de economia neoclássica descreve, porque nenhum livro de economia neoclássica quer olhar para a fusão entre burocracia e balcão. A Tyler não vende software. Vende dependência institucionalizada.
O relatório da Evercore fala em "crescimento resiliente da nuvem" e "expansão de margem SaaS" com aquela prosa asséptica que economista de banco aprende a escrever para não assustar o cliente institucional. Traduzindo do burocratês para o português: a empresa está migrando prefeituras que antes pagavam licença fixa para modelo de assinatura mensal perpétua, e cada município que entra nesse ciclo vira anuidade vitalícia. Quer dizer, o que se vê é o gráfico bonito de receita recorrente subindo. O que não se vê é o prefeito da cidadezinha do interior do Kansas assinando um contrato que seu bisneto ainda vai pagar, sem ter a mínima ideia de que existem alternativas open source rodando em prefeituras europeias por um décimo do preço.
Me diz uma coisa, quando foi a última vez que você viu uma licitação municipal de software realmente competitiva? A resposta honesta é: quase nunca. O processo é desenhado com especificações técnicas que só a incumbente atende, o comitê avaliador foi treinado pela própria incumbente em "seminários educativos" pagos pela incumbente, e o consultor contratado para desenhar o edital trabalhou na incumbente. Isso não é teoria da conspiração, é o organograma público das grandes contas da Tyler. É por isso que o preço-alvo de US$ 375 provavelmente subestima o ativo. Não porque a empresa seja boa, mas porque o monopólio é bom.
A ironia final é que o mesmo analista que dá "In Line" para essa ação, dando de ombros para o múltiplo esticado, seria capaz de escrever um relatório inflamado se uma startup privada tentasse cobrar metade desse preço num mercado competitivo. A diferença é que a startup teria que entregar valor todo trimestre, enquanto a Tyler só precisa manter o telefone do lobista atendendo em Washington. Todo poder tende a corromper, e o poder de faturar do orçamento público sem entregar resultado mensurável corrompe silenciosamente, planilha por planilha, contrato por contrato, até virar tese de investimento defensiva num fundo de pensão de professor aposentado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.