A cena se repete com pontualidade britânica. Uma casa de análise de Wall Street reitera recomendação positiva para a Intuit, elogia a nova estratégia fiscal da companhia, projeta crescimento de receita, e o mercado responde com o entusiasmo de quem acabou de descobrir a pólvora. Ninguém, absolutamente ninguém, faz a pergunta que qualquer criança de dez anos faria diante do arranjo: por que existe uma indústria bilionária cuja única função é traduzir para o cidadão comum o idioma cifrado que o próprio Estado criou para cobrar impostos dele? A resposta não está nos relatórios da Evercore. Está no lobby.
Siga o dinheiro e a fábula desaba. A Intuit gastou dezenas de milhões de dólares nas últimas duas décadas para impedir que o Internal Revenue Service oferecesse declaração gratuita e automatizada, coisa que a Estônia faz há anos, que o Reino Unido faz, que qualquer país minimamente decente faz sem precisar de intermediário privado cobrando cento e vinte dólares por transação. O contribuinte americano paga imposto, paga a burocracia que administra o imposto, e ainda paga uma terceira vez para uma empresa privada decifrar o labirinto que a segunda criou. É o triplo confisco, e Wall Street chama isso de crescimento de receita.
O que a Evercore vê como estratégia fiscal inteligente é, na verdade, a consolidação de um monopólio de fato construído sobre a fundação mais sólida que existe: a complexidade artificial. Quando o código tributário tem setenta e cinco mil páginas, quem lucra não é quem paga, não é quem cobra, é quem interpreta. A Intuit não vende software, vende decodificação. E o produto que ela decodifica é fabricado, com esmero e crueldade, pelo mesmo governo que finge querer simplificar as coisas enquanto assina cheques para os lobistas da empresa. Não existe coincidência aqui. Existe desenho.
O que se vê é o gráfico bonito da ação subindo, o executivo sorrindo no Bloomberg, o analista da Evercore repetindo os múltiplos de EBITDA. O que não se vê é o pequeno empresário que gastou três dias tentando entender uma linha de dedução, é o aposentado que pagou por um serviço que não deveria existir, é o programador desempregado que poderia ter construído a plataforma pública de declaração se o Estado tivesse feito seu trabalho básico em vez de terceirizá-lo para quem financia suas campanhas. Cada dólar que a Intuit ganha nesse arranjo é um dólar que saiu do bolso de alguém que não tinha escolha, porque o Estado tornou a alternativa criminosa.
Chame do que for. Capitalismo de compadrio, corporativismo, captura regulatória, aquele nome antigo e feio que ninguém quer mais usar. O fato é que quando uma empresa privada precisa do lobby permanente para manter sua receita, ela não é mais uma empresa de mercado, é uma extensão parafiscal do Estado, um cartório disfarçado de startup. A Evercore não está avaliando uma companhia de tecnologia. Está precificando o direito de arrecadação delegada. E o mercado, esse mercado dopado por décadas de dinheiro barato e regulação seletiva, aplaude como se fosse mérito.
A lição aqui não é sobre a Intuit, é sobre o modelo. Toda vez que alguém elogia a genialidade de uma empresa cuja principal vantagem competitiva é a relação com o governo, está elogiando o contrário do capitalismo. O capitalismo verdadeiro é o padeiro que faz pão melhor que o vizinho. O capitalismo de compadrio é a empresa que faz o vizinho ser proibido de vender pão. Um enriquece o cliente, o outro empobrece o cidadão. E enquanto Wall Street não aprender a distinguir os dois, vai continuar chamando de estratégia fiscal aquilo que qualquer pessoa honesta chamaria pelo nome correto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.